Validade vencida
- lazzarimlouize
- há 3 dias
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por Lea Oksenberg
Carregar uma sentença por mais de seis décadas não é coisa pouca. Quando uma cigana me parou aos dez anos e cravou, com a autoridade de quem lê as linhas da palma da mão, que a minha vida terminaria aos 73, ela plantou uma data de validade em mim. Durante a adolescência, a maternidade, os anos de trabalho, as redações e as velhas trincheiras políticas, aquele prazo corria em segundo plano, como um ruído que a gente tenta ignorar, mas teima em repensar a vida a cada aniversário que se aproxima. Foram 64 anos remoendo essa história num vai e volta sem fim.

Pois o ano dos 73 chegou, passou e deixou tudo para trás. Hoje completo 74 anos. Não há sensação no mundo que descreva esse desabafo: a profecia caducou, o fantasma que me acompanhou por seis décadas perdeu a validade e a vida venceu a superstição. Renascer aos 74 tem um peso imenso, porque não é só fazer aniversário. É, pela primeira vez, desde que aquela menina de dez anos parou assustada na calçada, que ela pôde olhar para a frente sem um ponto final desenhado por ninguém.
E que ironia: no dia em que celebro essa travessia e venço a cigana, a minha tela explode em notificações. Passei a escrever crônicas quase todo dia, ocupando meu espaço na rede, e o algoritmo do Facebook resolveu convocar uma multidão para a comemoração. Aparece de tudo: gente que começou a me ler agora, companheiros das antigas com quem dividi passeatas e campanhas difíceis — como o bom e velho Stica, que me manda áudio rindo e lembrando daquele tempo em que ninguém sabia se o nome dele era apelido ou se o apelido era sobrenome —, mas também brota um batalhão de perfeitos desconhecidos que simplesmente clicaram no aviso automático da rede.
É um contraste quase poético. De um lado, o peso silencioso de quem atravessou uma vida inteira esperando um dia marcado no escuro; do outro, essa barulheira virtual em que amigos de trincheira, leitores novos e estranhos gentis se misturam num coro só para desejar vida longa.
No fim das contas, pouco importa se a máquina avisou ou se a metade dessa gente nunca tomou um café comigo. O que vale é o barulho da existência. A cigana leu o meu destino e errou feio na conta. Sigo aqui, viva, escrevendo e colhendo os parabéns de quem vier.
No novo tempo
Apesar dos castigos
Estamos crescidos
Estamos atentos
Estamos mais vivos
Novo tempo - Ivan Lins e Vitor Martins




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