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O afeto não enferruja

por Lea Oksenberg


Quando a porta finalmente se abre e a visita entra, todo o alvoroço da véspera perde o sentido. A gente arruma tudo para agradar, confere os detalhes e pronto: a vida real assume o comando. A delícia de receber quem faz parte da nossa história é justamente não precisar fingir nada.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

É aí que a mágica acontece. Pouco importa se passou um ano ou se a rotina impôs uma distância grande demais. Certas presenças dispensam qualquer protocolo de reinício. Não é preciso atualizar o currículo da vida, justificar sumiços ou ensaiar cerimônia. Nos primeiros cinco minutos encostados na bancada da cozinha, parece que o papo só tinha sido interrompido para ir ali buscar um copo d’água.


O riso sai solto, as lembranças voltam com a mesma pontaria e a intimidade se ajeita sem esforço. Ao lado de quem conhece a nossa essência, a gente tem o luxo de não performar: nem maturidade de vitrine, nem paciência fingida. Fica só a cumplicidade pura, em que até o silêncio entre uma frase e outra acolhe e descansa a cabeça.


No fim das contas, a correria antes de abrir a porta era só o pretexto para o que realmente interessa. Certa vez, numa viagem pela Bahia, cruzei com uma plaquinha simples que dizia: o afeto é revolucionário. Nunca esqueci. E é mesmo. O maior luxo da vida não é ter uma casa arrumadinha de novela, mas ter com quem sentar à mesa e descobrir que o afeto não envelhece, não enferruja e transforma tudo.


Enquanto eu corria, assim eu ia

Lhe chamar enquanto corria a barca

Preta pretinha (Luiz Galvão e Moraes Moreira)

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