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Pai, foi o vento

por Lea Oksenberg


A vida tem essas ironias que parecem armadilhas do tempo. Regina descobriu isso ao cruzar a porta de vidro automático de uma clínica moderna em Curitiba, daquelas com cheiro asséptico, luz fria e nomes pomposos, para fazer exames de rotina. Olhou em volta e tomou um pequeno susto: estava na rua Professor Brandão. Mais do que isso, estava exatamente no número 140.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

Naquele tempo em que as pessoas ainda sabiam de cor o endereço dos outros — porque se escreviam missivas de próprio punho em papel de carta —, aquele pedaço de chão não tinha nada de hospitalar. Era a casa onde ela passava os dias de inverno da sua adolescência, observando o mundo com a curiosidade afiada e a perplexidade típica da idade.


A clínica engoliu vários terrenos e espalhou consultórios, mas não apagou a geografia da memória. Regina esperava pela chamada do exame sabendo que, onde hoje repousa um equipamento de última geração, ficava o escritório da frente, com sua vidraça imensa voltada para o pátio.


E foi exatamente ali, naquele mesmo metro quadrado, num passado longínquo, que o dono da casa resolveu estacionar. Não na garagem, claro, mas com um enorme carrão, talvez um Galaxie, daqueles que pareciam navios sobre rodas, direto para dentro do escritório. O homem, que costumava beber todas e chegava com a solene convicção de que o mundo é que estava meio fora de prumo, atravessou vidro, cortina e alvenaria sem pestanejar.


Na manhã seguinte, de banho tomado e com o semblante intacto de quem apenas cumpre o expediente matinal, o patriarca olhou para a filha, para os estilhaços no chão e para a cratera aberta na parede:


— Mas o que aconteceu aqui no escritório?


E a filha, com a elegância de quem já aprendeu a negociar a sobrevivência doméstica, respondeu sem piscar:


— Pai... foi o vento. Deu uma ventania muito forte ontem à noite.


Hoje, naquele mesmo espaço não há poeira, nem marcas de pneu e tudo funciona na mais perfeita e gélida ordem. Mas, ao sentir o leve estalo do vento curitibano contra a fachada moderna, Regina teve a certeza de que, se o equipamento acusasse alguma turbulência no seu peito, o laudo já estava pronto desde a adolescência: não era nada, pai. Tinha sido apenas o vento.


Eu bebo sim, estou vivendo

Tem gente que não bebe e está morrendo, eu bebo sim.


Eu bebo sim -

João do Violão e Luiz Antônio

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