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A honra de entrar na lista dos incômodos

há 2 dias
2 min de leitura

por Lea Oksenberg


Há quem colecione selos, discos raros ou obras de arte valiosas. Há quem prefira o colecionismo mais moderno: o de inimigos imaginários. Fui informada recentemente de que pertenço a um clube exclusivo, uma daquela lista de nomes carimbados que circulam às escondidas entre os donos da verdade e da carteira assinada. Consto lá naquela lista de judeus como indesejável, intocável, imprópria para o consumo do bom-mocismo corporativo. Confesso: senti um orgulho danado. Ser excluída por quem não tem o que dizer é o maior elogio que uma consciência limpa pode receber.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

As listas não são novidade, claro. A Inquisição tinha as suas, o macarthismo refinou o método e, no Brasil, a tradição de meter o pé na porta dos porões para silenciar quem pensa vem de longe. Nos anos oitenta, o pai da minha filha já havia batido ponto nesse mesmo catálogo de proscrição. Ficou um tempo no "freezer" das redações, mas quem tem estofo não vira picolé. Redação é paixão, é cheiro de papel e café frio, mas o jornalismo não cabe num crachá de controle de ponto. A pena afiada corta mais fundo do que a caneta do censor jamais conseguiria alcançar.


O engraçado dessa patota que adora elaborar listas de "não contratáveis" é a ilusão de poder. Acham que um nome num PDF clandestino é sentença de morte econômica, quando na verdade é um selo de garantia de que a pessoa em questão não se vendeu, não se curvou e continua incomodando. É o desespero de quem não sabe argumentar e recorre ao boicote mudo, covarde, digno de quem tem medo da própria sombra.


Ficam lá nos gabinetes, morrendo de medo da gentalha, achando que riscar alguém do mapa apaga a realidade. Não apaga. Só mostra quem tem espinha dorsal e quem nasceu apenas para carregar a pasta dos outros.


Se é para estar em alguma lista, que seja nessa. Pelo menos a gente dorme em paz sabendo que nunca coube no bolso deles.


Não me convidaram

Pra esta festa pobre

Que os homens armaram pra me convencer

Brasil - Cazuza, George Israel e Nilo Romero

 
 
 

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