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A leveza do fim

31 de ago.
2 min de leitura

por Lea Oksenberg


Ela olhava para si mesma e não encontrava mais vestígios daquela antiga rigidez, construída ao longo do tempo. A máscara que sempre a protegeu do mundo havia virado um nada, dando lugar a uma delicadeza mansa e urgente, que agora comandava cada um de seus gestos. Não era apenas um modo novo de estar no mundo; era a pressa branda de quem pressente a finitude rondando a varanda.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

Havia atravessado a arrebentação de uma doença grave com a certeza inegociável de quem sabe que o temporal há de passar. E passou. Mas o horizonte que se abriu depois da tempestade trouxe o gosto do entardecer. Uma sensação funda, sem nome exato, de que a vida vai dobrando as pontas do caminho e pedindo passagem para um fim que não se explica, apenas se sente. Não havia terror nessa certeza, mas a gravidade serena de quem percebe que o tempo já não é uma promessa elástica, e sim um punhado de minutos raros que escorrem entre os dedos.


Ao redor, os reencontros aconteciam como abraços fora do tempo, desatando nós antigos e aquecendo a casa. Ao mesmo tempo, o corpo prestava suas contas miúdas. O organismo, cansado de tanta química, avançava em passos lentos de reconstrução, trazendo a fragilidade da matéria que lembra, a cada dia, o limite do sopro que nos sustenta.


Diante desse término inevitável que a alma anuncia, seu desejo havia se tornado transparente: deixar pelo caminho uma saudade boa. Queria que sua passagem pela vida dos que amava ficasse guardada pela doçura dos gestos desarmados, pela escuta atenta e pelo afeto sem reservas. Viver entregue à ternura era o seu jeito manso de organizar o que é eterno antes da partida, fechando as portas com cuidado, sem medo do silêncio que vem depois.



Depois de te perder

Te encontro com certeza

Talvez num tempo da delicadeza...

Todo o Sentimento (Chico Buarque e Cristovão Bastos)

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