Dançando na sombra
por Lea Okseanberg
Dizem que toda sombra precisa de luz para existir, mas Lygia sabia que na prática a conversa é outra. Tem época na vida que a sombra cria perna, anda sozinha e toma conta da casa toda.

Não é aquela sombrinha fresca de debaixo de árvore que dá alívio no calor. É aquela sombra que pesa nos ombros, que parece um desânimo sem fim, uma desesperança danada. Você liga a televisão, olha as contas, escuta as notícias ou simplesmente acorda cansado, e parece que perdeu o rumo da prosa. Parece que o mundo inteiro ficou cinzento e que não tem lâmpada no mundo que dê jeito.
Nesses dias, Lygia puxava a cadeira da cozinha, passava um café e não tentava inventar alegria que não estava sentindo. Falar para quem está desanimado que "lá fora o sol está brilhando" às vezes só dá raiva, porque a vista da gente embaçou mesmo.
Ela ficava ali, quieta, esperando a poeira baixar. Porque quando a vida fica escura desse jeito, a única coisa que dá para fazer é colocar os dois pés bem firmes no chão, respirar fundo e não ter pressa. A sombra pode até parecer dona do pedaço por um tempo, mas a gente continua vivo embaixo dela, esperando o dia clarear de novo.
Luz do sol
Que a folha traga e traduz
Luz do Sol - Caetano Veloso




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