O encanto do interruptor
por Lea Oksenberg
A pergunta surgiu solta numa conversa qualquer de internet: fazenda, sítio ou apartamento? Para Dorothy, a resposta não exigiu um segundo de reflexão. Apartamento, sem hesitar.

Há quem suspire pela simplicidade das manhãs orvalhadas, pelo canto dos passarinhos e pela brisa que balança as copas das árvores. Dorothy até acha tudo isso encantador, desde que na condição estrita de visitante — daquelas que chegam para um mergulho na piscina e vão embora antes que a bomba do poço resolva engasgar.
O amor de Dorothy pela civilização vertical repousa numa lógica simples: o funcionamento das coisas. No apartamento, quando se aperta o interruptor, a lâmpada acende. Se não acender, o problema quase sempre é uma lâmpada queimada ou um apagão geral desses que as distribuidoras privatizadas andam entregando com generosidade. Mas ninguém espera que ela desça até a rua, com uma escada de alumínio debaixo do braço, para mexer na fiação do poste.
Num sítio, a poesia campestre dura exatamente até o momento em que da torneira sai apenas ar. Sem água, a realidade desmorona. Não há portaria para interfonar, nem síndico a quem cobrar respostas convincentes sobre a manutenção da tubulação. No mato, a heroína precisa calçar as botas, pegar uma lanterna e atravessar a escuridão da noite para levantar uma tampa pesada de concreto no chão. Ali, entre insetos noturnos e a umidade da terra, descobre-se que a paz interior depende de uma boia travada ou de um motor emperrado.
Dorothy prefere a burocracia civilizada. Se a água míngua no décimo andar, basta um telefonema para a administração. O síndico que lute, que mande o zelador conferir as bombas, que dê um prazo realista. Enquanto isso, ela fecha o registro, abre um livro e espera o milagre do encanamento predial se restabelecer.
O campo pode ter horizontes sem fim e ar puro, mas nada supera o conforto sublime de viver onde os perrengues estruturais vêm com boleto de condomínio e terceirização de culpa.
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Sampa - Caetano Veloso




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