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O cansaço do nada

há 5 dias
2 min de leitura

por Lea Oksenberg


Marieta acordava com a certeza de que havia corrido uma maratona carregando sacos de cimento. Sentava-se na beira da cama, olhava para as meias grossas de lã e soltava o veredito antes mesmo de tomar o primeiro gole de café: estou cansada.


Foto:Freepik
Foto:Freepik

— Cansada de quê? — irritava-se consigo mesma. A véspera tinha sido mansa, zen, as pendências urgentes estavam pagas. De onde vinha aquele peso nos ombros? Bastava a queixa escapar para que uma voz prática decretasse que não queria saber de inércia. Mas não era moleza fingida. Marieta toda vida operou em alta voltagem, movida por palavras, prazos e o ritmo do cotidiano. Só que essa marcha vinha reduzindo o passo, gradativamente.


Ainda bem que sobravam as palavras. Marieta continuava perdidamente apaixonada por elas. Sim, pelas palavras. Escrever, ler e alinhavar pensamentos vinham sendo o respiro, a troca boa e o lado leve do dia. O incômodo era o eco que teimava em se instalar na cabeça como um disco arranhado repetindo a mesma ladainha sem pedir licença: estou cansada, estou cansada.


Na falta de explicação palpável, a imaginação saltava direto para o abismo, bem coisa de quem tem a cabeça acelerada demais para suportar o vazio.


A verdade, pensava ela ao encarar um suco de beterraba, é que cansa existir em linha reta. Cansa a romaria dos dezoito comprimidos diários, a teimosia dos objetos que insistem em fugir do lugar, a vigilância besta de ter que justificar o próprio sossego. Se o cansaço vinha sem causa aparente, que viesse. Ficar na poltrona sem pressa era desacato, sim, mas com prazo de validade: o cansaço ganhava o direito de existir, mas não de paralisar. Marieta sabia que logo teria de inventar caminho de novo.


Sentado não tem sentido - Paulo Leminski

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