A língua que se canta e se vive
- Vigília Comunica

- há 4 dias
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por Lea Oksenberg
Nesta semana em que celebramos o Dia da Língua Nacional, no dia 21 de maio, vale a pena desviar o olhar dos manuais de gramática e prestar atenção na rua. É lá, no calor do dia a dia, que o português do Brasil se mostra uma língua única e cheia de personalidade. Nós não apenas herdamos um idioma; nós o transformamos, misturamos e demos a ele um tempero que é puramente nosso.

O brasileiro tem uma capacidade única de transformar a própria história em verbo. Se a política ferve, o povo inventa: o sobrenome vira ação, e de repente todo mundo entende o que significa "malufar" ou "lular". Não precisamos pedir licença aos dicionários para dar nome às nossas realidades. Nós simplesmente pegamos o que está acontecendo e conjugamos.
Essa mesma liberdade é o que faz o nosso dicionário ser tão rico em sotaques. O que na feira de uma cidade se chama aipim, logo ali vira macaxeira ou mandioca. O lanche da tarde divide o país entre o biscoito e a bolacha. Essas variações não são erros, são as linhas de um show de história, em que a língua da terra — o nosso tupi — se misturou com o português trazido de fora e devolveu um falar mais macio, mais leve e acolhedor.
Mas se a nossa língua é viva na boca do povo, ela encontra a sua verdadeira casa na nossa música popular. Foi ali que ela se consolidou de verdade. Não há gramática mais perfeita do que a dignidade de um samba, traduzindo as dores da alma com a precisão de quem conversa com o coração. Não há poesia mais pura do que os versos de Chico Buarque vendo "a banda passar, cantando coisas de amor". E o que dizer da genialidade desse mesmo Chico, que em Construção fez a vida urbana girar no ritmo perfeito das proparoxítonas. Exemplos não faltam.
Nossa língua nacional é esse organismo vivo, feito de encontros, de ginga e de uma paixão que se renova a cada melodia.
Gosta de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Língua - Caetano Veloso




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