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Ali estavam meus ossos

Crônica sobre a fragilidade dos tempos e da vida


por Pedro Carrano


Atravesso a cidade com um exame atirado no banco de trás do carro.


Tenho receio de abri-lo, mantenho o envelope enorme fechado, até por que o que a gente sabe da linguagem médica? Capaz que ela aumentasse a compreensão dos monstros. Atravesso a capital, que vira um corredor solitário, mesmo com trânsito insuportável. Na verdade, um túnel do tempo, uma galeria que um time de futebol atravessasse antes de ingressar no nervosismo da partida; um corredor onde, no final, alguém está te esperando pra dar uma porrada.


Estaria rumo a algo decisivo na minha vida de 45 anos?


Repassei minha caminhada inteira. Não pensei em nada. Pensei em tudo. Pensei em minha mãe, que carregava e me legou a mesma doença dos ossos, chamada osteocondromatose múltipla, uma espécie de tumor em cada extremidade da ossatura, mas com pouca chance de malignidade e já num nível muito menor que o dela.


Não posso reclamar, desde a infância a doença nunca me atrapalhou em nada. Talvez apenas envergou meus ossos e interrompeu o sonho de ser jogador de futebol, quando o professor Mauro Madureira nos dava broncas e corrigia nossos passes tortos no velho e extinto Malutron.


As memórias se somam, se dividem, se multiplicam. A genética é algo louco, eu já tenho muito menos problemas que minha mãe teve, porém a mesma idade de quando ela foi parar no hospital, para tantas vezes voltar para aquele espaço.


Repito comigo mesmo que não pode ser agora. Estou no melhor momento. Na luta, na vida, na arte. Preciso respirar e seguir me agarrando nos dias com a força com que um cão morde qualquer coisa. Há tanta gente com questões e problemas mais graves. Começou o frio. Mas está sol. Penso em minha filha. Penso nos amigos. Penso em nossas lutas. Em cada sorriso e abraço. Penso nos autores que amo. Não penso em mais nada. Penso na extensão do mar e de uma praia. Uma praia gigantesca e de nuvens azul escuras.


Penso na fragilidade da vida, desses dias. Impossível não pensar na sociedade e de um consórcio que promove o genocídio da Palestina, no imperialismo de Trump abrindo as portas pra uma História indefinida. Penso na minha filha, penso nas próximas gerações e no longo eixo de crise que ainda vão enfrentar.


Penso num amigo da mesma geração que eu, falecido nesta mesma semana. Não podemos ter fatalismos, mas reconhecer que nossa geração, desde junho de 2013, foi de certa forma derrotada no projeto que sonhou de transformações profundas da sociedade brasileira. O que pode ser um embrião de vitória futura. Porém, como é difícil lidar com isso, o quanto de paciência e angústia exige no plano estritamente pessoal.


O médico foi rápido e incisivo. O médico foi demorado. Esquadrinhou todas as cópias de raio-x e ressonância magnética, me desvendou por dentro, cada estruturura, cada osso, cada espinha, cada vértebra de uma coluna que ainda se sustenta, chegando ao que, ao fim e ao cabo, é nossa parte mais permanente. A parte de nós que restará. Ali estavam meus ossos.


* Seus ossos estão perfeitos, está tudo certo. A coluna, olha aqui, com cada disco lubrificado. Tudo perfeito. Nada brilhando.


Deixo a clínica, recebo o sol de quase inverno curitibano no rosto. Me detenho por um minuto de costas contra o muro e, por pouco tempo, penso nos que já se foram e em qual o sentido de eu estar ainda aqui nesse planeta. Estou vivo, porra. Estou bem. Tenho muito o que fazer. Estou agarrado a essa tal de vida. A diferença talvez seja que, agora, sinto que sei exatamente o que fazer com ela.

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