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CRÔNICA | A rua de Julieta e Romeu

“O mundo é grande. O universo é grande. A constelação é grande. A galáxia é grande. E é ali que eles vivem, nesse mundo enorme e nessa pequena esquina de vida”


por Pedro Carrano


Eles chegam perto, às vezes amigavelmente, às vezes demarcando o território. A rua é aberta, o bairro extenso, construído no traçado de uma ferrovia. Região, bolsão, vila, complexo, favela, que importa o nome, a quebrada tem curvas, entradas, becos e caminhos tortos de rio. O mapa, dizem, nunca é o território. Nunca, de verdade. Todos, como que por instinto, sabem desse ensinamento.

Imagem produzida com IA
Imagem produzida com IA

Eles não têm fronteiras, não têm donos e nem cercas, embora delimitem seu espaço e durmam em manilhas. O mundo é grande. O universo é grande. A constelação é grande. A galáxia é grande. E é ali que eles vivem, nesse mundo enorme e nessa pequena esquina de vida. Um grupo de quatro, dois deles formaram um casal permanente e são chamados pelos vizinhos de Julieta e Romeu.


O casal come junto, busca restos pela via juntos, recebe doações dos passantes, sempre lado a lado. Acompanham às vezes os carrinheiros perambulando pela região sul da capital. Às vezes dormem em marquises separadas, ou na porta da associação de moradores, cuidam e valorizam o espaço, enquanto correm atrás de pássaros à beira do riacho. Estão acostumados também aos chutes e ofensas de gente ignorante e maldosa.


Por outro lado, são prestativos. Entendem um pouco a lei da troca. A arte do ombro amigo. Parte do seu ser atávico.


Às vezes a doação não chega. Às vezes não circula um centavo. O que não impede, no final do dia, um olhar de alegria no movimento e na velocidade dos carros que passam na avenida.


As doenças já levaram alguns dos velhos camaradas. As ruas dos cães estão mais vazias. As chuvas sem coordenação arrastam quase tudo, agora quase toda semana. Um belo dia, Julieta deixou as ruas, recebeu adoção ou voltou para a velha família, são vários os boatos.


Romeu segue na sua maratona diária, disputando a raspa no fundo da marmita. E muita coisa do que fica são restos do que já não vive: A ferrovia, a casa demolida, o rio já sem nenhuma vida, os velhos nomes e símbolo lá do começo da vila. A solidão dos nomes de velhos patriarcas.


Ele lança um olhar baixo de expectativa e saudade, já no fim de cada dia, o que pode ser reconhecido por qualquer passante. Os moradores sentem a ausência de Julieta tanto quanto ele, que já não consegue correr atrás dos carros como antes. Falta uma peça, uma asa, uma roda desse bólido do afeto que antes caminhava junto.


Talvez a dama ainda esteja menos à vontade, sabendo que desfruta agora de conforto enquanto seu amor, nalguma noite sem sono e sem dono, dorme no chão. O chão que na verdade é o mundo.


Formosa, 2023.

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