A paz do condomínio
Lea Oksenberg
Há notícias que chegam sem alarde, mas soam como a mais límpida sinfonia de cordas. Nenhuma manchete de jornal supera o doce espetáculo de um caminhão de mudança dobrando a esquina para nunca mais voltar.

O finado ocupante do apartamento abaixo do meu era, sem favor algum, um exemplar raro da espécie chato de galocha. Nem tinha como classificá-lo como tal porque ele excedia todas as especificações de um ser chato. Daqueles que parecem ter vindo ao mundo com um estetoscópio colado no teto e um caderninho de queixas a tiracolo. Para ele, a vida alheia era uma agressão acústica contínua.
Implicava com o oxigênio que entrava nos pulmões de quem ousasse existir no andar de cima. O banho tomado após as dez da noite virava uma ofensa pessoal: a água correndo mansa pelos canos devia soar, aos ouvidos dele, como as cataratas do Iguaçu despejadas em sua sala de estar. Se alguém inventasse uma partida de vôlei com bexigas — sim, bexigas, que em Curitiba balão é coisa de São João e o que flutua na sala é bexiga de borracha —, o homem já via o prenúncio de um terremoto. O toque sutil de uma bola de ar quicando no tapete equivalia a uma demolição. A do apartamento dele.
Viver em condomínio exige certa tolerância. Quem não suporta o ranger de um assoalho, o suspiro de um cano ou a audácia de uma risada antes da meia-noite não nasceu para a vida vertical. Deveria ter se mudado direto para o coração da mata fechada, onde a única reclamação possível seria contra o coaxar dos sapos.
A confirmação veio ontem. Sim, ele se foi! O prédio continua no mesmo lugar, a tubulação segue o seu curso e o ar agora entra leve, sem medo de ser notificado por excesso de volume. Que a nova casa do moço seja à prova de som — e bem longe daqui.
"O homem é um macaco que não deu certo."
— Millôr Fernandes




Comentários