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A poética da força e da História

Antologia de Walmor Marcelino mostra parte do vigor da sua experiência de linguagem


por Pedro Carrano


O resgate feito pelo neto e pela editora Kotter é fundamental. Foto: Pedro Carrano
O resgate feito pelo neto e pela editora Kotter é fundamental. Foto: Pedro Carrano

O escritor, poeta e militante político, Walmor Marcelino, faleceu em 2009, aos 79 anos, depois de uma vida marcada pela militância estudantil, contra a ditadura e, mais tarde, no combate ao neoliberalismo dos anos 90.


Conta-se que o autor de extrema direita, Olavo de Carvalho, quando morou em Curitiba (e já nos anos 90 formava um séquito de jornalistas estudantes desmiolados), tinha em Marcelino um oponente de peso contra as ideias que tentava propagandear, inclusive no espaço da Universidade Federal.


Ao lado do engajamento, Marcelino deixou uma obra de 30 trabalhos abrangendo teatro, prosa e, sobretudo o que parece ser o mais maduro enquanto linguagem, uma obra poética.


Dessa, os poemas políticos foram resgatados e selecionados por seu neto, Fernando Marcelino - Sociólogo, especialista em China, militante do movimento popular, que sempre seguiu os passos do avô.


"Antologia Poética Política" (Kotter Editorial, 2025, 64 páginas) é, assim, um importante resgate e mostruário de um autor que andava esquecido em edições artesanais. Marcelino tem um trabalho consistente com a palavra, mesmo nos versos que dialogam com episódios históricos contemporâneos, com uso de aliterações e rimas:


"Somente um dos dois percebe:

disputar lixo é sobrevivência

não na espécie que não cede

virtualha como dação decência;

sim ganho da sua natureza

que o fez com instinto e garra

lutar até a morte pela presa

qualquer que à sorte esbarra"


Brechtiano


"O poder não pode apagar as ideias", diz ele, no poema Palestina (p.25).


Uma poética como a de Marcelino flerta e alerta para as coisas reais da vida, o trabalho, o sustento. De forma brechtiana, mantém-se sempre leal à concepção artística de que "primeiro o pão, depois a moral" transparece nos versos do autor.


O resgate feito pelo neto e pela editora Kotter é fundamental. Acredito que, num próximo trabalho, seria possível conjugar os trabalhos políticos, mas também mantendo os versos em que Marcelino, com muita carpintaria textual e com linguagem própria, trabalha temas do cotidiano, da subjetividade, enfim, se faz necessária uma publicação de toda a poética do autor, inclusive para mostrar sua abrangência.


Últimos pensamentos


O livro ainda nos brinda com dois pequenos artigos - quase pensatas - sobre desafios da esquerda, nos quais se vê nítida a preocupação com a perda de referencial teórico que abateu a esquerda após a queda da URSS nos anos 1990.


"Sem quadros revolucionários a militância social é cega - os quadros revolucionários são a expressão de qualidade na quantidade de militância", página 47.


Ao lado do engajamento, Marcelino deixou uma obra de 30 trabalhos. Foto: Divulgação
Ao lado do engajamento, Marcelino deixou uma obra de 30 trabalhos. Foto: Divulgação



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