Silvina Gruppo escreve um romance com a linguagem e ansiedade moderna
O texto, com isso, causa uma sobreposição interessante entre passado e presente, entre memória e herança
por Pedro Carrano

No seu segundo romance, traduzido por Laura Jahn Scotte, pela editora Cambalache (2026), a escritora argentina oferece ao leitor o fluxo de consciência de uma trabalhadora de marketing de 43 anos, dividida entre a monotonia de uma relação com Sebastián, em que a conversa muitas vezes se resume a troca de “joinhas” no zap, e, por outro lado, as expectativas em relação ao colega de trabalho Joaquín.
Mais que isso. A narrativa em primeira pessoa reforça o clima de imediatismo da personagem, a rotina atribulada, o uso cotidiano das diferentes linguagens modernas, em meio a um vocabulário que se mantém fiel à oralidade argentina.
O deixar a filha para um passeio numa colônia de férias desperta na narradora a culpa de todo pai e mãe modernos, e puxa um flashback para as marcas da sua infância e da mãe, dona Noel. O texto, com isso, causa uma sobreposição interessante entre passado e presente, entre memória e herança.
“Vermelho. Freio de repente e o carro de trás bate no meu. Minha bolsa cai no chão. Olho pelo retrovisor o banco vazio da minha filha. Ainda bem que ela não está comigo. O cara desce para ver a batida; eu abro a janela – para que fui fazer isso? – e ele enfia a cabeça dentro do carro.
- Tava no celular, sua imbecil? – pergunta, e solta a fumaça na minha cara. Eu puxo tudo, engulo. Incrível: fumo a fumaça já fumada e sinto o peito abrir”, página 16.
Quase como o deâmbulo de um Ulysses, moderno, cotidiano, feminino e argentino, Gruppo traça um panorama das angústias modernas que nos aproximam. E dos silêncios que também nos distanciam.





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