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DICA DE LEITURA I Otto Winck dá mais um passo em sua obra poética

Mesmo em experimentações inéditas do soneto, transparece a fala direta


por Pedro Carrano


O desencanto desses cantos não chega a ser um niilismo nietzchiano sem saída. Foto: Pedro Carrano
O desencanto desses cantos não chega a ser um niilismo nietzchiano sem saída. Foto: Pedro Carrano

Em terras de Leminski, Helena Kolody e Marcos Prado, a produção poética atual em Curitiba segue ganhando vigor.


O professor de Literatura Otto Winck, mais conhecido pela sua obra como romancista, em que se destaca “Que fim levaram todas as flores?” (Kotter, 2019), com o pano de fundo da ditadura militar em Curitiba, chega à sua terceira publicação de poesia e reafirma a coerência do seu projeto poético.


“Fragmentos de caos ou mosaico” (,nauta, 2026, 94 páginas) é um mostruário dos caminhos que Otto tem experimentado nos últimos anos – desta vez com mais força.


Na tensão entre palavra e vida, Otto lança mão da metapoesia não como exercício puramente formal. Mas, ao contrário, como forma de tensionar e contaminar-se das coisas palpáveis do mundo: a solidão, a finitude, o protesto.


Durante a leitura, é importante identificar diálogos com Leminski e Guimarães Rosa (Nonada, p.14), Fernando Pessoa (O Tempo e o Nada, p.60), Hemingway (p.74), Baudelaire (O ex-Flâneur, p.55), entre outros.


A leitura alterna-se entre a metapoesia, a escrita dialogando com a simplicidade da oralidade – poemas que poderiam ser lidos em qualquer lugar prosaico. Mesmo em experimentações inéditas do soneto, transparece a fala direta, o texto mundano.


Que chega, nesse percurso, por fim a um tom de cântico, de canto. Como se Otto, poeta, também nauta, entre o cotidiano e a aventura, enveredasse, a seu modo, por Ilíadas e Odisseias – referência permanente no texto.


“No horizonte o sol se põe sobre o Ocidente
que nasceu em Homero
e morreu em alguma viela de Tijuana”, página 63.

O desencanto desses cantos não chega a ser um niilismo nietzchiano sem saída ou ausência do tão em voga "esperançar". Só que é preciso dizer que as páginas de Otto estão manchadas pela consciência de um Adorno em meio à Auschwitz e, no nosso caso contemporâneo, da consciência do poeta em meio ao genocídio de Gaza.


“Na valise que arrasto nas ruas
há um deságio de sonhos
e esperanças vencidas”, página 59.

O amargor não significa falta de saídas, mas talvez a percepção de que este mundo – o do modo de produção capitalista – já está superado e deveria ser destruído.





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