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Acareação

11 de set.
2 min de leitura

por Lea Oksenberg


Marisa não pediu para ninguém entrar na sua vida. De repente, apareceu aquela tal de inteligência artificial — a Meta — oferecendo uma brincadeira moderna: queria desenhar o retrato de Marisa. Numa curiosidade boba, daquelas de quem não tem nada a perder numa tarde qualquer, Marisa topou. Mandou a fotografia. Era uma foto bonita, com um sorriso aberto, solto, gostoso.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

Mas quando a máquina devolveu a imagem na tela, o chão de Marisa sumiu. O riso travou na garganta:


— Caraca, meu! Como estou velha!


Foi um susto seco. Uma coisa é o que se carrega dentro da cabeça. A autoimagem é generosa; ela congela num tempo bom, num reflexo rápido de espelho de banheiro com a luz certa, numa época em que o viço parecia que nunca ia embora. Por dentro, Marisa continua inteira, ágil, dona dos próprios pensamentos e dos mesmos afetos de sempre. A alma de Marisa era jovem.


Já a imagem da tela veio crua, exata, cirúrgica.


No silêncio da sala, Marisa fez uma verdadeira acareação. Colocou as duas frente a frente. De um lado, a mulher que ela tinha certeza de que era; do outro, aquela senhora marcada pelas décadas que o computador cuspiu sem dó.


Olhou para uma, olhou para a outra e sentiu a decepção com aquele gosto amargo na boca. Não eram a mesma pessoa. Marisa descobriu que a tecnologia pode até inventar mundos, mas a maior crueldade dessa modernidade é servir de espelho sem alma para o tempo que a gente finge não ver passar.


Quero falar de uma coisa

Adivinha onde ela anda

Deve estar dentro do peito

Ou caminha pelo ar


Coração de Estudante — (Milton Nascimento e Wagner Tiso)

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