Acareação
por Lea Oksenberg
Marisa não pediu para ninguém entrar na sua vida. De repente, apareceu aquela tal de inteligência artificial — a Meta — oferecendo uma brincadeira moderna: queria desenhar o retrato de Marisa. Numa curiosidade boba, daquelas de quem não tem nada a perder numa tarde qualquer, Marisa topou. Mandou a fotografia. Era uma foto bonita, com um sorriso aberto, solto, gostoso.

Mas quando a máquina devolveu a imagem na tela, o chão de Marisa sumiu. O riso travou na garganta:
— Caraca, meu! Como estou velha!
Foi um susto seco. Uma coisa é o que se carrega dentro da cabeça. A autoimagem é generosa; ela congela num tempo bom, num reflexo rápido de espelho de banheiro com a luz certa, numa época em que o viço parecia que nunca ia embora. Por dentro, Marisa continua inteira, ágil, dona dos próprios pensamentos e dos mesmos afetos de sempre. A alma de Marisa era jovem.
Já a imagem da tela veio crua, exata, cirúrgica.
No silêncio da sala, Marisa fez uma verdadeira acareação. Colocou as duas frente a frente. De um lado, a mulher que ela tinha certeza de que era; do outro, aquela senhora marcada pelas décadas que o computador cuspiu sem dó.
Olhou para uma, olhou para a outra e sentiu a decepção com aquele gosto amargo na boca. Não eram a mesma pessoa. Marisa descobriu que a tecnologia pode até inventar mundos, mas a maior crueldade dessa modernidade é servir de espelho sem alma para o tempo que a gente finge não ver passar.
Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar
Coração de Estudante — (Milton Nascimento e Wagner Tiso)




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