CRÔNICA I O relógio do meu pai
"Uso o relógio talvez como lembrança, como uma torta herança, mas é difícil precisar"
por Pedro Carrano

Carrego comigo um relógio. Com pulseira de prata. Eu, que nunca gostei de qualquer adorno, sei que as pessoas estranham quando me perguntam a hora e eu não respondo de imediato, mas ainda assim preciso recorrer ao celular, como é normal hoje em dia.
A sobrancelha de estranhamento do meu interlocutor é já esperada: por que, então, usar um relógio? Mas é apenas um gesto. Ninguém chega a me questionar sobre esse estranho hábito.
A verdade é que o relógio me foi dado pelo meu pai, se não me engano na infância, quase como uma passagem de rito, e sei que ele também o havia ganho com oito anos. Um relógio da marca seiko, totalmente analógico, mas desconfio que uma das características desse legado paterno seja um ritmo mais lento do que o comum. Quando noto, o relógio já está atrasado. E, de certa forma, penso, pode ser algo interessante nos dias de hoje, marcados pela velocidade suprema: andar em descompasso com a hora oficial.
Uso o relógio talvez como lembrança, como uma torta herança, mas é difícil precisar. O relógio é das poucas coisas que remetem à infância, de meu pai, mas também trazem a minha à tona. Se ele me contou que recebeu o presente com oito anos, o ano deveria ser aquele de 1966. Ano de tragédia na Copa. Ano de um Brasil duramente golpeado pela ditadura.
Recordo que ganhar um item desses era de um cuidado enorme, mas a gente logo se frustrava com os primeiros arranhões no vidro, ou tinha que saber lidar com a maldade dos piás logo tentando estragar nosso objeto de apreço. A novidade, para os guris – um tênis novo, um presente, uma roupa nova, parecia ser sempre insuportável. E logo tinha que ser destruída ou atacada.
Há alguns anos, com o falecimento de minha mãe, eu e meu pai perdemos a ponte que fazia a mediação entre nós. Com o acirramento da luta política, daí nos afastamos de vez. E as tentativas de conciliação foram inúteis, até serem, passo a passo, abandonadas. Desistimos de seguir girando no mesmo compasso da reconciliação. No fundo, o relógio de meu pai é um medidor. Não da correção das horas e do tempo, mas do seu desacerto. É uma espécie de lembrete, de marcador, de nossos infinitos desencontros. O que também é, temos que admitir, parte da vida e do tempo.




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