CRÔNICA I O cavalo de Vitor
Atualizado: 14 de set.
O cavalo de Vitor me é entregue pouco antes do almoço servido por dona Glá, na cozinha comunitária
por Pedro Carrano

O cavalo de Vitor atravessa longas paisagens. Sua cor é cambiante, aberta à imaginação. Mas ele pode até lembrar o cavalo negro de Alexandre. O equino atravessa ruas sem esquinas, sem asfalto, imerso nos sonhos do povo lidando com os cascos e carcaças do poder público.
Mas o cavalo de Vitor pisa firme em flores coloridas, flores de outono dispersas por calçadas que inexistem. E, animal novo, coexiste com sonhos simples: a pipa, o apego, o abraço, o calombo da bola chutada sem destino, ao vento.
O cavalo de Vitor é desenhado no reforço escolar, no contraturno, na parte da manhã, quando mães da área de ocupação vila União deixam seus filhos no centro social. Ali, ao lado de umas 15 crianças, com as mãos, lápis, durex e cola, o cavalo de Vitor demonstra que não existe genialidade ou dom, mas seus cascos reforçam que é preciso criar as condições para que todos possam correr e se desenvolver com liberdade. O cavalo de Vitor é sagaz e veloz!
O cavalo de Vitor necessita de água, de repouso sob telhas de zinco pra se refugiar da tempestade, necessita de vagas na creche e infraestrutura que o município ainda não oferece. Mesmo assim, o cavalo de Vitor tem sutil sorriso, dos que acreditam e galopam mesmo que no terreno sujo da História, em meio ao esterco fértil das adversidades. Contra o vento, contra tornados, o cavalo de Vitor parece ter as crinas e o olhar elevado, dos que olham sempre o horizonte. O cavalo de Vitor é altivo!
O cavalo de Vitor me é entregue pouco antes do almoço servido por dona Glá, na cozinha comunitária, com o sorriso limpo, quase distraído e a entrega despretensiosa e gratuita. Tem destinário certo: “Eu fiz ele pra você”, mas não há qualquer aparente objetivo. Afinal, volto para casa com um galope que me martela e repisa:
O que agora posso fazer com o cavalo de Vitor?




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