CRÔNICA I Sob as bençãos de Eronilda
"Uma mensagem com o coração do povo brasileiro, capaz de encontrar caminhos e ver luzes no meio dos labirintos mais difíceis"
por Pedro Carrano

Muitas vezes me faz falta quando não os recebo. Falo dos áudios enviados por dona Eronilda, cozinheira comunitária, moradora da área Ferrovila, no bairro Novo Mundo. Uma amiga de militâncias cotidianas. Seus áudios e mensagens de fé tornaram-se quase um hábito semanal. Às vezes, são enviados para mim às 4h30, quando essa mãe e avó já desperta para as lidas do dia.
São mensagens de ânimo, carregadas de adjetivos que talvez eu nem faça jus – “continue tendo esse coração maravilhoso” -, mas uma narrativa que, assim, no meio das intempéries da semana, serve de uma espécie de respiro, um sopro que carrega mais força do que um punhado de livros de Augusto Cury ou velhos coaches recheados de ternos e de palavras vazias.
É uma fala de carinho, que às vezes também recebemos de outras integrantes do movimento popular. Uma fala com verdade e preocupada com o outro. Uma mensagem com o coração do povo brasileiro, capaz de encontrar caminhos e ver luzes no meio dos labirintos mais difíceis. E talvez assombre um pouco porque o fato é que perdemos essa capacidade de olhar, apreciar e incentivar a caminhada de outra pessoa. Estamos voltados apenas para nós mesmos - e cada vez mais.
Eronilda é uma mulher do povo brasileiro. Descendente de poloneses, com um sotaque inclusive carregado no “erre”, vivendo ao lado de seu Valdecir, homem negro, com quem aglutina filhos e netos, vivem em meio à correria da caminhonete de material reciclável, ao cuidado das crianças e, como não poderia deixar de ser, reservando tempo da semana “pra contribuir com os outros”. Um doar-se gratuito.
Fato é que esse carinho coletivo com que nos deparamos em trabalhos de solidariedade, cozinhas comunitárias, associações de bairro, compensa e faz valer a pena toda a dificuldade cotidiana e a situação tantas vezes dificílima em que se encontram os assalariados brasileiros.
De onde Eronilda tira essa energia durante a semana? Da terra, das palavras, da fé, dos livros, do Sol, do fogo, da Bíblia?, da qual andei distante por décadas. Tamanha força vem de Nossa Senhora Aparecida, que ultimamente anda interferindo até mesmo, pasmen, na conjuntura política?
Por ora, eu me contento em receber os áudios e as palavras positivas dessa moradora da Ferrovila. São artefatos, pequenos fogos de artifício, no céu da nossa paisagem interior, de que tanto necessitamos. Mas pra tudo isso, me convenço, é preciso reconhecer nossa fragilidade. E também, por outro lado, a força dos pequenos gestos.




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