Minha cama, minha vida
O peso de ver a seriedade soterrada pela cara de pau
por Lea Oksenberg
Dá uma vontade de deitar na cama e não levantar nunca mais. Não por falta de esperança no país, mas porque a carga é pesada demais. É o programa "Minha Cama, Minha Vida" instalado na marra, onde a gente se sente completamente prostrado e impotente diante de uma engrenagem sufocante.

De um lado, a gente sabe que existe quem tente fazer o trabalho sério, quem tem compromisso com a responsabilidade pública, com as pessoas e com o país. Mas, do outro lado, o que transborda é uma cara de pau monumental, uma rede de mentiras descaradas e uma canalhice sem fim. É muita sujeira jogada no ventilador todos os dias, a ponto de parecer que a mentira tem palco cativo e megafone e ecoa nos mais diversos rincões.
Ver essa desfaçatez rolando solta por aí dá uma revolta que paralisa. Não é sobre equiparar os lados porque eles não são iguais — há quem trabalhe com seriedade. O que esgota é ver o peso dessa hipocrisia e dessa manipulação recair sobre quem só queria ver as coisas funcionarem com decência. É por isso que dá vontade de puxar o edredom sobre a cabeça: não por desistência, mas pela exaustão de lidar com tanta desfaçatez.
Mas a verdade é que o edredom não dura muito tempo quando a realidade chama a gente para fora. Basta olhar para quinta à noite: 50 mil estudantes ocupando as ruas, em Curitiba, mostrando que a apatia tem prazo de validade. Contra tudo e contra todos, a esperança desceu do quarto, tomou o asfalto e lembrou que a história não é escrita pelos cínicos, mas por quem ainda ousa lutar. A cama ficou para trás; o futuro voltou a marchar.
Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
(Renato Russo)




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