O futuro cansa
por Lea Oksenberg
Embaixo das cobertas, o mundo de Zé Maria tinha o tamanho exato de um colchão amassado e a claridade frouxa da telinha do telefone. Era domingo, mas os ponteiros do relógio pareciam paralisados. A cama, que deveria ser o porto seguro de quem já trabalhara e correra atrás da vida, havia virado trincheira. Uma reclusão quase necessária, um silêncio forçado a contragosto para ver se o barulho do mundo lá fora afastava as paredes do quarto.

A bem da verdade, Zé Maria estava recolhido, mas não estava sozinho. O telefone que trazia o cansaço do mundo também era o fio por onde a vida real, a boa, teimava em entrar. Eram os amigos — gente de perto e de longe — que não deixavam o homem sumir do mapa. Um mandava receita de caldo, outro perguntava se ele já tinha tomado o remédio, um terceiro simplesmente dizia para ele desligar a tal tela e ir dormir. Essa turma fazia um cordão de isolamento ao contrário: queriam blindar o Zé Maria da sanha do mundo.
Porque fora dali, o país fervilhava em mais uma eleição que insistia em arrancar o sono de quem já havia visto o filme de 1989. Naquela época, as forças se mediam em um Brasil sem urna eletrônica, e o medo do futuro tinha outro timbre, mas a mesma secura na garganta. Só que agora a fatura vinha em formato de conversa fiada que não acaba mais, barulho de rede social até a exaustão dos dedos e uma corrosão lenta dos afetos.
Ontem mesmo, veio a notícia de Adalberto, colega exilado em Luxemburgo. Um luto esquisito dando conta de que um amigo do Ada havia morrido. Zé Maria coçou a cabeça e não entendeu muito bem. Decidiu tirar a dúvida: o suposto morto havia se perdido naquele fanatismo cego, embarcado de cabeça na onda daquela gente — o que, para Ada, lá na Europa, significava que a amizade havia estancado, virado defunto virtual. Zé Maria pensava nisso e achava tudo de uma estranheza colossal. Não era briga de torcida de futebol, não era birra passageira. Era o futuro em jogo, a disputa encarniçada entre dois projetos de país, com tanta criança ainda por crescer, tanta gente precisando aprender o básico da vida.
— O problema — matutava Zé Maria, puxando o edredom mais para cima, sentindo ao menos o calorzinho das mensagens dos compadres no celular — é que o futuro cansa. E o Brasil, às vezes, parece uma piada que insiste em virar tragédia.
Mas, enquanto a tela apagava e o quarto mergulhava de novo no silêncio, ele pensou nos compadres, na sopa que um mandava inventar e na teimosia de quem ainda acredita. O futuro podia ser duro de engolir, e 1989 parecia estar ali de volta, assombrando a esquina. Só que, ao contrário do mundo lá fora, que parecia decidido a desabar, Zé Maria fechou os olhos sabendo que o descanso era só momentâneo: o país podia até estar perdendo o rumo, mas a amizade continuava sendo o quartel-general de onde ninguém arredava pé. Amanhã, afinal, o sol voltava a nascer e a briga recomeçava.
"Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais."
Como nossos pais, Belchior




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