O avião a gato e o Dia dos Professores
por Lea Oksenberg
O Dia do Professor é daquelas datas que merecem festa, mas Pedro Alcântara, um senhor já de cabelos brancos com os neurônios ainda em ação, olha para trás e se pergunta como sobreviveu à infância escolar sem perder o juízo. Porque Pedro teve de tudo na vida. Teve a professora Catarina — santa mulher! —, que, na falta de alternativa melhor naqueles tempos, botava a molecada a ler Monteiro Lobato e a encenar peças de teatro. Foi graças a ela que Pedro aprendeu a gostar de ler na marra, descobrindo que o mundo era muito maior que a sala de aula.

Mas nem só de carinho pedagógico vivia o aluno. Havia também figuras como a inesquecível Morah Fani Kramer. Ai de quem cruzasse o caminho dela. E por que diabos Pedro tinha que estudar a Torá? Com todo o respeito aos profetas, Pedrinho olhava para aquilo no primário e pensava: matemática não é religião, história não é religião, para que que a gente tem que estudar religião, cacete? É bem por isso — e com toda a propriedade de quem sofreu com exigências sem sentido na carteira escolar — que Pedro defende com unhas e dentes uma escola pública, gratuita e, acima de tudo, laica. Escola é lugar de ensinar a pensar, não de catequizar.
E por falar em primário, Pedrinho guarda marcas profundas daquela época. Na prova, veio a clássica pegadinha: "Dê exemplos de transporte aéreo". Pedro, gênio incompreendido da aviação infantil, escreveu o óbvio: avião. Mas como avião sozinho era pouco para a sua alma visionária, ele caprichou e registrou: avião a gato. A professora, claro, quase caiu dura. Mas sobreviveu para contar a história.
Ao longo dos anos, Pedrinho conviveu com todo tipo de professor. Teve os mestres inesquecíveis, os informais da vida que ensinaram muito mais que os livros, e teve também aqueles clássicos "professores de Deus" — criaturas que achavam que tinham a verdade absoluta impressa no diário de classe e o monopólio da sabedoria.
É por isso que, quando chega a época de eleição, o papo sobre o Estado entra em cena e Pedro não se aguenta. O debate não é sobre burocracia chata; é sobre garantir que a educação pública continue de pé, que a saúde funcione, que a segurança proteja e que o sistema de cotas abra as portas para quem sempre empurrou a carroça ladeira acima. O Estado forte, provedor e laico não é um capricho, é a rede de segurança para que as próximas gerações de "Pedrinhos" possam errar nas provas, inventar meios de transporte felinos, dar boas risadas e aprender de verdade.
Ninguém tira o trono do estudar
Ninguém é o dono do que a vida dá
E nem me colocando numa jaula
Porque sala de aula essa jaula vai virar
Trono de estudar - Dani Black
Parabéns aos professores! Aos bons, aos chatos, aos que inspiram e até àqueles que obrigavam a decorar a Torá — afinal, sem eles, o Pedro não teria história nenhuma para contar.




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