CRÔNICA I Sobre a arte e nossos caminhos tortos
- Pedro Carrano
- há 4 dias
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por Pedro Carrano

Finalizo um desenho.
Um desenho simples, de animal, de bicho. Meio selvagem, meio doméstico. Como sempre gostei de fazer, desde a infância. Sei que agora o faço pra presentear uma criança. E, também, quase como uma espécie de terapia. Do lápis HB para o 8B, do grafite mais fraco para o mais escuro, a nuance de tons, preencho a folha A3 e, por algumas horas, a atenção plena dos meus olhos está naquele pedaço de tecido que antes era totalmente em branco. E o que é branco dói na vista.
Me pergunto qual é o sentido de arriscar um desenho, de manejar as cores do lápis, molhar o pequeno pincel de aquarela, numa época em que as ferramentas de inteligência artificial poderiam produzir em poucos segundos algo mais expressivo, mais realista, mais interessante, mais vibrante. De que vale insistir numa obra, mesmo que por pura diversão, ou pior ainda, se fosse a sério? Me faltam técnicas apuradas, porém a questão não é essa. Estaremos diante de um último suspiro da criação artística neste momento quando as linguagens já não dependem de nós?
Penso em algo que um artista, de quem hoje estou distante, escreveu nas redes sociais, falando sobre o fato de o estilo refletir talvez os nossos defeitos mais do que necessariamente nossas virtudes. Ele teve participação decisiva na minha formação, quando eu ainda era piá, e voltar a desenhar é como ouvir a voz dele sussurrando e orientando: não deixe nada que não esteja preenchido.
Passei então a pensar a minha arte – e a obra de qualquer artista – como expressão única: de meus limites, do meu olhar, do meu grau de miopia, da minha forma torta de andar, das coisas que gosto e que não gosto em mim, a linguagem artística única de cada um de nós, como uma refração no lago, um espelho deformado sobre as coisas, longe de algum modelo ideal de perfeição.
A arte é o limite, a arte é o nosso grito e reconhecimento desse limite, e é bonita justamente porque outras pessoas, limitadas como nós, vão se reconhecer naquele objeto artístico e deformado. Vão se identificar com a expressão de nossos defeitos revertida em beleza, em verdade, em expressão coletiva. Deformado, Hefestos era um semideus expulso do Olimpo, o que o tornava ainda mais obcecado pela produção de objetos e ferramentas perfeitas.
Hoje, já não tenho contato com o artista que me ensinou tantas coisas, sentimento comum que a vida adulta nos reserva. Eu e meu pai nos afastamos e já não conversamos há anos. Fico, ao menos, com o consolo. Pelas vias tortas, indiretas da vida, meu desenho rompe com o mestre, mas toca uma nova criança que o recebe, com alegria e olhos brilhantes. Um fio de continuidade e de vontade de criação nos mantêm vivos, como chamas. Ainda precisamos disso.
Na verdade, somos isso.




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