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Tempo de recolher o pó

há 6 dias
2 min de leitura

por Lea Oksenberg


Há um momento em que a vida vai nos empurrando para dentro do quarto. Assim aconteceu com Dolores. Tudo começa com uma obra, um chão quebrado, o pó fino do porcelanato que invade as frestas e a obriga a fechar as portas. Ela se senta na cama para escapar do barulho, para não pisar no entulho, e quando percebe, a reclusão deixou de ser abrigo. Virou morada. O mundo lá fora chama com a urgência dos apaixonados, mas o corpo ganha um peso próprio. Dolores sente. Não é preguiça — essa palavra fácil que quem está de fora adora disparar. É um cansaço de fronteira, explica Dolores, uma necessidade quase física de não desmanchar mais nada.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

Dizem que quem ama faz as malas. Mas quem já desfez malas durante boa parte da vida sabe o preço que custa fincar um pé na terra. Trata-se de ter chegado a um ponto em que mudar de cidade não é uma aventura romântica: é um desenraizamento. E arrancar as raízes não é fácil. O afeto existe, é imenso, mas não cabe dentro de uma exigência de tudo ou nada.


No amor maduro não deveria haver cobranças. Estar disponível para acudir, para viajar, para celebrar os dias de sol — como aqueles risos largos que parecem eternos — é uma coisa. Outra, bem diferente, é que ninguém constrói paz pisando em ovos. Um dia chove, noutros faz sol, mas quando se aproxima o vendaval, ficar no seu canto é o jeito que Dolores encontrou para continuar inteira. E só inteira ela consegue ser, de verdade, de alguém.


Hoje eu quero a paz de crianças dormindo

E o abandono de flores se abrindo

Para enfeitar a noite do meu bem

— Dolores Duran, A Noite do Meu Bem

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