Tempo de recolher o pó
por Lea Oksenberg
Há um momento em que a vida vai nos empurrando para dentro do quarto. Assim aconteceu com Dolores. Tudo começa com uma obra, um chão quebrado, o pó fino do porcelanato que invade as frestas e a obriga a fechar as portas. Ela se senta na cama para escapar do barulho, para não pisar no entulho, e quando percebe, a reclusão deixou de ser abrigo. Virou morada. O mundo lá fora chama com a urgência dos apaixonados, mas o corpo ganha um peso próprio. Dolores sente. Não é preguiça — essa palavra fácil que quem está de fora adora disparar. É um cansaço de fronteira, explica Dolores, uma necessidade quase física de não desmanchar mais nada.

Dizem que quem ama faz as malas. Mas quem já desfez malas durante boa parte da vida sabe o preço que custa fincar um pé na terra. Trata-se de ter chegado a um ponto em que mudar de cidade não é uma aventura romântica: é um desenraizamento. E arrancar as raízes não é fácil. O afeto existe, é imenso, mas não cabe dentro de uma exigência de tudo ou nada.
No amor maduro não deveria haver cobranças. Estar disponível para acudir, para viajar, para celebrar os dias de sol — como aqueles risos largos que parecem eternos — é uma coisa. Outra, bem diferente, é que ninguém constrói paz pisando em ovos. Um dia chove, noutros faz sol, mas quando se aproxima o vendaval, ficar no seu canto é o jeito que Dolores encontrou para continuar inteira. E só inteira ela consegue ser, de verdade, de alguém.
Hoje eu quero a paz de crianças dormindo
E o abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem
— Dolores Duran, A Noite do Meu Bem




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