DICA DE LEITURA I "Na Brasílio com a Ângelo" mostra o vigor da prosa de José Carlos Fernandes
- Pedro Carrano
- 7 de jul.
- 4 min de leitura
Além de o livro de crônicas se configurar num objeto de memória afetiva
por Pedro Carrano

“Cá com os meus botões, suspeito que escolhi o jornalismo para poder provar milhares de vezes a mesma sensação – a de passar da porta para dentro, girando os olhos vesgos da curiosidade”, página 79, da crônica Eu preciso saber da sua vida.
Começo essa resenha relatando que o lançamento de “Na Brasílo com a Ângelo”, (Telaranha, 2026), livro de crônicas do jornalista José Carlos Fernandes, me remeteu à imagem histórica do lançamento de Catatau, de Paulo Leminski. Assim como naquele longínquo ano de 1975, dessa vez a livraria e editora Telaranha estava lotada, uma fila enorme para os autógrafos alinhada ao lado de outra para a compra do livro. Era perceptível um carinho expresso de estudantes, colegas de jornalismo, artistas e malucos da cidade.
E esse momento não aconteceu à toa. É impossível pensar no “Zeca” sem ressaltar a sua capacidade gigantesca de escuta, seus olhos e ouvidos sempre atenciosos, sua capacidade de memorizar e passar adiante as histórias do interlocutor, muito mais preocupado do que com as suas próprias narrativas. Isso porque, na verdade, seus relatos são dependentes da voz do outro.
Isso está expresso na personalidade do jornalista e já valia um elogio, pelo respeito e amizade que todos têm por ele. Mas a questão é que esse traço, essa linguagem divertida, auto-irônica, leve e ao mesmo tempo barroca, tudo isso é marcante também no seu trabalho literário. Como um conto contado por uma criança, a literatura do Zeca carrega esse humor doce de quem narra, sempre com o olhar mirando o outro (que difícil nesses tempos quando o apenas o EU prevalece).
A crônica de José Carlos Fernandes tem como matéria principal a memória.
O que remete a um lugar afetivo - e geográfico, palpável. É a memória da infância e de sua formação, que acaba sendo metáfora também do próprio desenvolvimento capitalino. Zeca nasceu e cresceu com a família e com os pés entre as vilas do Novo Mundo e Água Verde, experimentando, junto com elas, os ombros pesados da modernidade. Mas uma das formas de resistência reside justamente nas curvas sinuosas das comunidades feitas de casas e sonhos, é justamente ali que Zeca descobre a possibilidade de encontrar pessoas, de achar histórias fantásticas.
Talvez isso explique, mesmo nos seus tempos de reportagem e agora como professor, a atenção dada por Zeca a esse estar coletivo que só quem viveu numa vila ou área de ocupação manja como funciona. É uma cachaça. E o Zé visita as comunidades como quem precisa bebericar um pouco desse sabor de prosear com a nossa gente, com o nosso povo.
“Criado no Água Verde, nasci no Novo Mundo, bairro cujo nome é um manifesto proletário, um verso livre. Orgulho vileiro. Tento mostrar com minha intriga municipal que a cidade não cabe na palma de mão alguma”, página 160, da crônica De deserto de afetos a um trem para o Novo Mundo, de 2021.
Referência como professor da UFPR, onde coordena a ótima experiência do Núcleo de Comunicação e Educação Popular (NCEP), que desenvolve pesquisa e extensão em áreas de ocupação e também junto a organizações sociais, quem conhece e convive com o José Carlos sabe da sua sensibilidade social e empatia.
Quem já esteve com ele na redação também respirava dessa atmosfera que ele sabe criar - e eu pude ser coordenado por esse jornalista no ano de 2004, na época quando eu era piá de tudo e já admirava o vigor do seu texto, sempre escrito em meio a uma mesa de trabalho cheia, procura constante de colegas, sons de telefone e mil e uma tarefas.
Entretanto, ver agora tudo isso reunido em livro dá uma dimensão outra do potencial do trabalho do mestre. O material reunindo crônicas de motivos simples e, aparentemente, sem pretensões, aos olhos do leitor se tornam gigantes. Comovem e deixam aquele gosto de: pô, já acabou?
Seu trabalho consegue a proeza de reunir apontamentos e diálogos criativos com grandes autores e filósofos, sem, nem por um minuto, Zeca resvalar na arrogância acadêmica e perder de vista o essencial: as pessoas simples, as pessoas curiosas, aquelas dispostas a contar ao repórter/investigador seus dramas, particularidades e questões.
Com isso, o texto torna-se um carnaval de linguagens e falas de dar inveja a qualquer Bakhtin (viram, já incorporei trejeitos da fala do Zeca!!!). Seu trabalho, no fim das contas, é um viva à capacidade humana, às paixões alegres, como queria Espinosa, distanciando-se das paixões tristes. As paixões da linguagem, o que nos reforça o prazer de estar vivo e de que tudo vale a pena se a alma não é pequena, como queria um tal Pessoa.
No fundo, diante das crônicas de Zeca, escritas no período conturbado e diverso desses vinte anos, nos sentimos em meio a um grande ensaio sobre todo o potencial e afeto de nossas memórias, e, sobretudo, da necessidade de contá-las. O que, ao fim e ao cabo, como José Carlos Fernandes já percebeu, é talvez aquilo que mais importe.





Comentários