DICA DE LEITURA I Thomas Mann, um escritor que define a decadência burguesa no século vinte
- Pedro Carrano
- 15 de jun.
- 3 min de leitura

O escritor irlandês Colm Tóibín, no livro O Mágico (Cia das Letras, 2021, 543 páginas) aposta alto em um romance construído a partir da biografia do autor alemão Thomas Mann, sobretudo com enfoque no impacto que o período da primeira e segunda guerra mundial teve na vida do autor alemão.
O texto de Tóibin, sóbrio, segue a realidade histórica, embora não seja improvável imaginar que possa fazer uso de licenças poéticas a partir do que conhece da vida e, sobretudo, da obra de Mann. Constroi a figura do intelectual em vista dos principais fatos políticos do século vinte.
Mann considerava-se um humanista, numa época em que as ilusões liberais e sobre a “grande cultura” alemã – mesmo tão sólidas, se desmanchavam no ar com a crise do capitalismo em 1929 e a ascensão do fascismo e do nazismo na Europa.
Oriundo da burguesia industrial, filho de um senador, possível herdeiro dos negócios do pai, Mann insistia que não era nem comunista e tampouco nazista, no período em que as contradições se agravavam na Alemanha com o ascenso meteórico do partido nazista – ascenso e acirramento da luta que ele mesmo não percebeu, enquanto escrevia obras atemporais, mesmo tendo vivido na conturbada cidade de , onde houve uma insurreição popular.
Principal figura pública da literatura
Em dado momento, no contexto de recebimento do Nobel de literatura, Mann tornou-se o principal escritor mundial, vivendo da literatura, com ótima procura e venda de livros.
Ao mesmo tempo, fato que transparece sobretudo em textos como “Morte em Veneza”, de 1912, o autor alemão tem uma vida conjugal e quatro filhos, ao mesmo tempo que expressa seu interesse por homens e esconde o fato de ser homossexual, apenas dando sinais em sua obra e mantendo um diário íntimo.
De Mann, naquele contexto, esperava-se que assumisse posição política declarada condenando o nazismo, o que Mann intensifica apenas quando ele mesmo entra na lista de autores perseguidos e que são obrigados a deixar a Alemanha, vivendo nos EUA.
“Estava começando a vê-lo como o mais importante escritor alemão vivo e alguém que estava no exílio por causa de sua oposição a Hitler. Não seria fácil explicar a eles o seu silêncio”, página 276.
O autor demorou a perceber e de certa forma menosprezou a ascensão desse fenômeno que arrastou todo a Alemanha, na onda também de uma revolução socialista que foi derrotada e que tinha a simpatia do irmão, Heinrich, também escritor, e do filho, Klaus, que mais tarde viria a se suicidar.
O romance ajuda ainda a pensar na ordem pós-1945. Ainda nos EUA, Mann era sondado por assessores do presidente Roosevelt sobre assumir uma possível transição na Alemanha – uma vez que figuras como Brecht, marxista e comunista, eram temidas.
O texto de Colm valoriza e coloca em cena a importância de um bom romance histórico. Ajuda também a perceber a relação entre o imaginário liberal da época, em um mundo corroído pela crise, de onde emergia um fenômeno que demorou a ser combatido e compreendido como se deveria: o nazismo.
“Os nazistas, ele se deu conta, não eram como os poetas da revolução de Munique. Eram arruaceiros que tomaram o poder sem perder o domínio das ruas. Conseguiam ser ao mesmo tempo governo e oposição”, página 254.





Comentários