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Eita propaganda enganosa!

Por Lea Oksenberg


Maio chega e, com ele, aquela trilha sonora de piano suave na TV. A mãe da propaganda acorda com um café da manhã impecável na cama e um sorriso de quem nunca teve que limpar um “acidente” de percurso às três da manhã. É tudo tão montado que a gente até se pergunta em que planeta essa mulher vive, porque no meu, o domingo de Dia das Mães é o campeonato mundial de quem faz mais malabarismo.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

O mercado tenta vender a “supermãe”, mas esquece da mulher que é jornalista, editora, revisora, avó e que ainda tenta manter o juízo no lugar enquanto o neto quer conversar bem na hora que o texto precisa sair. O "avesso" do domingo, para mim, é essa correria muitas vezes caótica. É a busca eterna pelo café que ainda esteja minimamente morno.


Mas a propaganda é enganosa por um motivo ainda mais cruel: ela finge que a maternidade é um privilégio cor-de-rosa, ignorando as mães que o mundo prefere não ver.

Enquanto uns escolhem perfumes caros, há mães que só queriam o direito de ver o filho voltar para casa. Mães pretas, pobres e periféricas que não recebem flores, mas o peso de uma estatística violenta. Mães que se defendem para não deixar a máscara do ‘tudo ótimo’ cair. Mães que esperam ansiosas a campainha ou o celular tocar. Para elas, o domingo não tem trilha sonora de piano; tem o profundo silêncio de uma ausência que dói por ‘ene’ razões, em especial pela pressa de um gatilho.


Mãe também apanha da realidade. Seja pela perda definitiva ou pelos silêncios que a vida impõe — aquelas distâncias afetivas que fazem o telefone não tocar —, a dor é uma língua universal que comercial nenhum traduz.


A gente não precisa da perfeição do comercial de margarina. O que a gente precisa é de dignidade para todas e de um bocado de bom humor para aguentar o tranco. A vida real, com seus beijos lambuzados e também com suas cicatrizes profundas, é muito mais complexa e urgente.


No fim das contas, a vida é um vai-e-vem danado. A gente segue em frente, de preferência com um samba no pé e rindo do próprio descabelamento. Afinal, entre um texto e outro, a gente aprende que o que vale não é a perfeição da TV, mas a coragem de continuar abrindo a porta para a vida, do jeito que ela vier.


Vou abrir a porta

Mais uma vez pode entrar

É Dia das Mães

Eu resolvi lhe perdoar

(Nelson Cavaquinho e Augusto Tomaz Jr.)

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