Escolha difícil
- Vigília Comunica

- 15 de mai.
- 2 min de leitura
por Lea Oksenberg
Li num editorial histórico que certas encruzilhadas se resumem a uma "escolha difícil". No papel, a frase tem a frieza de um diagnóstico. Mas, na vida, a dúvida não é uma linha reta; é um corpo que cansa, uma noite que não termina e aquela sensação de que, ao escolher um caminho, estamos deixando morrer uma parte de nós.

No geral, o mundo nos cobra definições. Querem que a gente saiba, com clareza de meio-dia, o que pesa mais na balança. Mas a balança da vida é viciada. Decidir não é apenas selecionar o melhor; é ter a coragem de aceitar o luto pelo que foi descartado. É entender que cada "sim" carrega o peso invisível de todos os "nãos" que o sustentam.
E é no particular que essa gravidade se manifesta. Para quem vive de lapidar textos e buscar o equilíbrio das frases alheias, o silêncio diante do que é delicado é um abismo. É o paradoxo de dominar o vocabulário, mas perder a voz na hora de tratar dos afetos. Sou péssima em encontrar a palavra que não fere, mas que também não mente. Travo porque quero acertar o tom, dividida entre a clareza da profissão e a fragilidade de quem só quer ser justa com quem ama.
Aprendi que o silêncio também é uma escolha. E talvez uma das mais pesadas. É difícil para quem se cala, guardando o que transborda, e é difícil para quem ouve e precisa interpretar o que não foi dito. Uma escolha difícil de verdade não ocupa as manchetes. Ela acontece no instante em que precisamos sustentar um "não" necessário para um neto, vendo o mundo se desmoronar naqueles olhos esperançosos. É aí que a teoria desmorona. Ficamos nós, a nossa intuição e a esperança de que o afeto sobreviva às nossas escolhas tortas.
No fim das contas, a gente entende que certas decisões nos deixam um pouco mais sós.
Mas é nessa solidão que a gente se encontra.
Quando não tinha nada, eu quis
Quando tudo era ausência, esperei
Quando tive frio, tremi
Quando tive coragem, liguei...
(À Primeira Vista – Chico César)




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