O luto de uma democracia que se desfaz
por Lea Oksenberg
Escrever sobre o Brasil hoje exige estancar a náusea. Não há espaço para gracinhas ou subterfúgios quando o que se avizinha não é um mero desvio de rota, mas a consolidação de um colapso anunciado. Assistir à ruína institucional deste país tem a exata, pesada e insuportável espessura de um luto. É como ver ruir uma democracia ainda jovem — uma frágil promessa de futuro que tratamos como um filho ou um pai perdido antes do tempo, arrancado pela negligência e pela sanha de quem nunca aceitou a soberania popular.

O que está se avizinhando não é susto passageiro; é a repetição hipócrita de um pacto de impunidade que zomba da nossa inteligência. Vemos o tabuleiro se mover com a precisão de um relógio macabro: os vazamentos seletivos, as mãos que afagam o autoritarismo enquanto fingem defender a lei, e, sobretudo, a instrumentalização de setores do Judiciário — capitaneados por aqueles quadros e figuras carimbadas cujas indicações carregam a digital do bolsonarismo e de seu projeto de poder. É a dissimulação daqueles que mudam a Constituição ao sabor dos próprios interesses familiares e criminais, onde o discurso de "bandido bom é bandido morto" se dissolve na conveniência da toga aliada e do sobrenome protegido, estendendo o tapete vermelho para os meliantes do entorno.
Isso não é medo do amanhã. É a constatação dolorosa do que já está batendo à nossa porta. É a sensação asfixiante de ver as engrenagens do arbítrio azeitadas à luz do dia, enquanto uma parcela grande da sociedade parece anestesiada, aceitando a degradação como se fosse apenas mais um capítulo normal de nossa crônica trágica.
Perder a democracia não é uma abstração jurídica. É perder o direito à respiração coletiva. É aceitar que o porão, a arbitrariedade e a violência institucional voltem a ser a regra da nossa casa.
E dói. Dói saber que a nossa geração está assistindo, impotente e lúcida demais, à demolição de um país que custou sangue, suor e décadas para começar a ser sonhado. Que tipo de terra é essa que pariu a esperança em 1988 apenas para vê-la ser esquartejada, pedaço por pedaço, na mesa de jantar dos mesmos donos de sempre?
"Do pântano de onde veio, o bicho imundo ainda está no cio." — Bertolt Brecht




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