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Miss Preta: da trajetória de modelo a uma voz potente na Câmara de Pinhais

“Trabalhamos tudo, em todas as frentes, conseguir pautar a cidade e os problemas que nos atingem”, afirma vereadora Miss Preta, pré-candidata à deputada estadual



por Pedro Carrano



Engana-se quem pensa que sua participação na política começou com os 1608 votos de 2024
Engana-se quem pensa que sua participação na política começou com os 1608 votos de 2024

A trajetória inusitada na política por parte de Miss Preta, os diversos espaços por onde passou – da vinda para Curitiba, passando pela passarela da moda e da fotografia, ingressando na política até chegar ao Partido dos Trabalhadores -, parecem ter tido sempre um fio comum: o não silenciamento, o grito, a denúncia das situações injustas. E isso buscando sempre o maior número de pessoas.


Engana-se quem pensa que sua participação na política começou com os 1608 votos de 2024, tornando-se a mulher mais votada da história de Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.


Antes disso, oriunda de Campos de Goytacazes (RJ), no contexto de queda de projetos e empregos na região, a jovem de uma família de oito filhos resolveu passar um ano no entorno da capital paranaense.


Então, enquanto mulher negra, o racismo sofrido no trabalho em um shopping center a fez logo depois buscar a passarela da moda, sendo eleita miss em Pinhais no ano de 2018. Não foi uma busca apenas por reconhecimento estético, mas, Miss Preta conta, um espaço onde também tinha visibilidade para amplificar sua voz.


“Era uma modelo que se posicionava, que tinha pautas e que já brigava, eu pautava isso na minha rede social”, recorda.


A primeira participação em eleições municipais, em 2020, ainda se deu pela legenda do Partido Republicano da Ordem Social (PROS). “Não recebi fundo partidário, fiz 531 votos, com equipe reduzida de amigos”, recorda.


Mais tarde, percebeu no PT um espaço para suas pautas – ainda que apontando vários entraves para se afirmar enquanto militante negra, porém Miss Preta via um diferencial de um partido orgânico e programático se comparado a uma sigla de aluguel.


“Eu escolhi o PT, apesar de proposta de sete partidos. Os partidos tentam comprar as pessoas, o PT não tentou me comprar. Apesar da derrota na primeira eleição, eu sabia que teria oportunidade mais à frente, ‘não deu agora mas vai dar’. Pessoas continuavam me apoiando. E eu seguia atuando mesmo sem ser parlamentar, eu ia até a Prefeitura protocolar pedidos, por exemplo”, relembra.


Mais tarde, percebeu no PT um espaço para suas pautas – ainda que apontando vários entraves para se afirmar enquanto militante negra
Mais tarde, percebeu no PT um espaço para suas pautas – ainda que apontando vários entraves para se afirmar enquanto militante negra

Prioridades do mandato


Miss Preta já inicia a conversa com a reportagem da Vigília Comunica ressaltando as pautas da negritude e da mulher. Junto a isso, seu mandato encontrou um caminho focado nos demais problemas que tocam nas condições de vida do povo trabalhador.


“Por ser vereadora, precisava atuar, devido à necessidade da população, pela primeira vez na Câmara, com pautas como a do racismo, da mulher, mas levantei também a falta de vagas em cmeis, a valorização dos professores, atendimento no SUS, a questão da moradia com lutas como a do (residencial) Graciosa”, elenca.


As três pautas principais no raio de Miss Preta são, neste momento: Saúde, Educação e transporte público metropolitano. O interessante neste caso também é a dimensão que esta mulher – ela mesma formada como técnica em Segurança do Trabalho – dá para as pautas trabalhistas, colocando-se, enquanto vereadora, ao lado dos operários e atuando na fiscalização das irregularidades das empresas.


“Fiscalizar as empresas terceirizadas, se estão pagando os trabalhadores, temos hoje essas pautas”, aponta. E completa: “Há empresas que não registram seus funcionários, que usam dinheiro público para a construção, sem pagamentos, sem direitos, com alojamentos precários”, denuncia, ressaltando também o resultado dessas denúncias que repercutem em mais reconhecimento da população.


“Fiscalizar as empresas terceirizadas, se estão pagando os trabalhadores, temos hoje essas pautas”, aponta
“Fiscalizar as empresas terceirizadas, se estão pagando os trabalhadores, temos hoje essas pautas”, aponta

Deputada estadual


Justamente por tudo isso que se viu acima, Miss Preta garante que hoje é reconhecida como um mandato popular, combativo, de uma mulher negra e de esquerda como as cercanias de Pinhais há muito tempo não viam.


“Nosso mandato fura uma bolha, eu entro na política e as pessoas conseguem ter esse contato, sua demanda atendida com respeito. Mais do que o debate ideológico entre direita, esquerda, centro, hoje, em Pinhais, sou parada em supermercado, pelo povo evangélico. Tem até quem diz ‘sou de direita, mas gosto do seu trabalho’. A população fala que nunca teve esse vínculo. Foi a primeira vez que os assuntos na Câmara Municipal foram pautados com transparência”, afirma.


Referências de caminhada


Uma de suas referências está na trajetória de Benedita da Silva, ex-governadora do Rio de Janeiro, primeira senadora negra do Brasil e militante do PT. “Quando a conheci, não é porque estava aposentada, a luta que ela traz, isso muito importante. Também me reconheço na trajetória do próprio Lula”, aponta, elencando também a importância de uma jovem geração negra que, no Paraná, está despontando na política: Carol Dartora, Renato Freitas e Giorgia Prates são alguns nomes citados.


“Como pessoas negras, temos que lutar pelo protagonismo. Na política não é diferente”, pondera, lembrando que “em 45 anos de PT no Paraná nunca teve uma vice-presidenta negra”, cargo que Miss Preta ocupa atualmente e que lhe abre espaço também para pleitear uma pré-candidatura à deputada estadual.


Ela admite que se ressente que, em 2024, era o momento de uma candidatura como a de Carol Dartora para a Prefeitura de Curitiba. “A inviabilização da campanha de Dartora me chateou muito, deveríamos dar esse espaço. Quando o parlamentar negro se coloca, o partido precisa apoiar, tendo candidaturas próprias nas regiões”, pensa.


Por ora, a vereadora segue apostando nas denúncias, mas que também são, como se diz, importantes anúncios. No chão de barro dos problemas concretos, e na repercussão disso, Miss Preta vai tecendo o seu caminho. “Se todo mundo fizesse isso, funcionaria”, conclui. Eis aí a questão.


“Como pessoas negras, temos que lutar pelo protagonismo, na política não é diferente”
“Como pessoas negras, temos que lutar pelo protagonismo, na política não é diferente”

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