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Mulheres trabalham mais e têm pouca representação

Dados do Ministério do Trabalho apontam que brasileiras recebem 21,2% menos que homens e dedicam quase o dobro de horas ao trabalho doméstico


por Joka Madruga


A luta por igualdade de gênero no mercado de trabalho e nos espaços de poder ainda enfrenta barreiras profundas no Brasil. O 4º Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho e Emprego revela que as mulheres recebem 21,2% menos que os homens em empresas com mais de 100 funcionários, com remuneração média de R$ 3.908,76 ante R$ 4.958,43. Os números do IBGE complementam o retrato da desigualdade: apenas 49,1% das mulheres estavam empregadas em 2024, contra 68,8% dos homens, e elas dedicam 21,3 horas semanais ao trabalho doméstico, quase o dobro das 11,7 horas dos homens.


Walkiria e Cristiane durante a Marcha das Mulheres, no dia 8 de março de 2026. Foto: Joka Madruga/SEEB
Walkiria e Cristiane durante a Marcha das Mulheres, no dia 8 de março de 2026. Foto: Joka Madruga/SEEB

Diante desse cenário, a Agência Vigília Comunica ouviu mulheres que falaram sobre os impactos da sobrecarga nas trabalhadoras e os desafios da representação feminina nos espaços de decisão. Walkiria Olegário Mazeto, presidenta da APP-Sindicato, e Cristiane Zacarias, presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região, concederam entrevista exclusiva abordando as múltiplas dimensões dessa realidade.


A dupla jornada como entrave ao desenvolvimento profissional


Para Walkiria Olegário Mazeto, a divisão sexual do trabalho, historicamente construída, continua determinando o lugar social das mulheres. Ela explica que, quando o capitalismo passou a incorporar a mão de obra feminina, o fez atribuindo às mulheres funções análogas às atividades domésticas, que não eram consideradas dignas de remuneração.


“Mesmo após séculos de luta pela alteração da divisão sexual do trabalho, por remunerações dignas às profissões ligadas aos serviços e cuidados, amargamos ainda índices como esses demonstrados pelo relatório do Ministério e pelo IBGE”, afirma Walkiria.


Ela destaca que as diferenças salariais e a imposição das atividades domésticas como responsabilidade exclusiva das mulheres impedem o acesso à escolarização, à capacitação profissional e ao desenvolvimento na carreira. “Dar conta das várias jornadas impostas acarreta adoecimento, dependência financeira, desistência de aprimoramento profissional e o impedimento de exercer a cidadania plena, mesmo que nos marcos da democracia burguesa”, completa.

Walkiria Olegário Mazetto, presidenta da APP-Sindicato. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Walkiria Olegário Mazetto, presidenta da APP-Sindicato. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

Cristiane Zacarias aprofunda a análise sobre os efeitos da escala 6x1 na vida das trabalhadoras. Ela descreve como a ausência de descanso adequado compromete direitos fundamentais.


“A dupla jornada tem um impacto muito cruel na vida dos trabalhadores como um todo porque retira deles diversos direitos, que é o direito ao descanso, o direito ao lazer, o direito ao estudo, o direito de escolher não fazer nada, o direito à convivência familiar”, afirma.


Cristiane faz um resumo específico para a realidade feminina. “Quando a gente faz o recorte para as mulheres, é desumano pensar nesta escala 6x1 para uma mulher que trabalha em casa e não é remunerada por isso, e trabalha fora numa condição de remuneração baixa.”


Ela alerta para as consequências na saúde ao longo do tempo. “A ausência de descanso, a ausência de um sono reparador, isso acaba acarretando diversos outros tipos de adoecimento que não somente o mental. A gente sempre faz um destaque para o mental porque esse excesso de jornada, excesso de estafa, de obrigações, de pensamento, porque ela está trabalhando, preocupada com os filhos, está com os filhos, já tendo que voltar para o trabalho.”


A dirigente defende que os trabalhadores precisam se unir em torno dessa pauta. “É importante levantar essa bandeira do quanto é difícil para os trabalhadores permanecerem no longo prazo nessa jornada e fazer o destaque sobre o quanto isso é cruel e severo com as mulheres. E ainda mais vendo diversos grupos tentando normalizar e lutando contra isso para tentar nos manter nesse lugar de submissão.”


Cristiane Zacarias, presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região. Foto: Joka Madruga/SEEB
Cristiane Zacarias, presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região. Foto: Joka Madruga/SEEB

Falta de representação nos espaços de poder e decisão


A segunda frente de análise aborda a presença feminina nos espaços de poder. Dados da CUT indicam que as mulheres são 52% do eleitorado brasileiro, mas ocupam apenas cerca de 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados e menos de 20% no Senado, colocando o Brasil na 133ª posição no ranking global de representação parlamentar feminina.


Walkiria Olegário Mazeto situa essa realidade como expressão do machismo estruturante da sociedade. “O machismo é um eixo estruturante na sociedade que vivemos e ele vai atravessar todos os espaços do poder, desde a ocupação de cargos nas esferas do Estado, mas também vai ser reproduzido na organização sindical.”


Ela recorda que a fala no espaço público foi historicamente exclusiva dos homens. “Até poucos anos atrás, a fala pública das mulheres era proibida, assim como as mulheres eram proibidas de transitar em público desacompanhadas de um homem. Se é verdade que já rompemos com muitas dessas regras culturais violentas, muitas ainda nos desafiam, ocupar os espaços de poder é uma delas.”


Walkiria observa a distribuição dos cargos ocupados por mulheres nas direções sindicais. “Na grande maioria, são cargos ligados a serviços burocráticos ou organizativos, poucas são as que ocupam cargos de definição ou representação política.”


Ela menciona os avanços conquistados no interior da CUT, como a exigência estatutária aprovada em 1993 de que tanto a direção da central quanto a dos sindicatos filiados tenham a cota mínima de 30% de mulheres. “Mesmo esse avanço ainda não foi suficiente para elegermos uma mulher como presidenta da maior central sindical deste país, explicitando o enorme desafio que ainda temos para garantir representação igualitária para as trabalhadoras.”

Marcha das Mulheres no 8 de Março. Foto: Joka Madruga/SEEB
Marcha das Mulheres no 8 de Março. Foto: Joka Madruga/SEEB

Cristiane Zacarias complementa que o movimento sindical reflete a organização estrutural da sociedade. “Ele foi pensado por homens, para os homens, e por longa data não havia espaço para as mulheres atuarem. A gente tem poucas mulheres na liderança, poucas mulheres no movimento sindical como um todo, embora tenha avançado bastante.”


Ela descreve as dificuldades adicionais enfrentadas pelas mulheres que conseguem ocupar esses espaços. “As mulheres que ali estão passam por todas as questões que na sociedade as mulheres enfrentam, que é a dupla e tripla jornada porque a gente tem por obrigação a leitura e o estudo, então é o trabalho no movimento sindical, é o trabalho doméstico, e ainda tem que arrumar tempo para se dedicar ao estudo”, complementa Zacarias.


Cristiane aponta o peso da cobrança diferenciada. “Sempre que as pessoas veem um homem ocupando um espaço de poder, seja no movimento sindical, seja na política, é natural, está tudo certo. Mas sempre que é uma mulher, há uma necessidade de que ela comprove todos os dias, em cada pauta e em cada tema, a sua capacidade de estar ali, ou esta presença é questionada de forma muito cruel.”


Para ela, a presença feminina transforma os lugares de decisão. “Quando a mulher passa a ocupar esse lugar, ele se transforma. Quando a gente diz que as decisões, a atuação, o enfrentamento precisa se dar de forma coletiva, a gente está dizendo que precisa ter o lugar de fala de todos, precisa partir do lugar onde todas as pessoas estão.”


Cotas de gênero como instrumento de transformação


As duas dirigentes destacam a importância das cotas de gênero como ferramenta para garantir a participação feminina. Cristiane Zacarias contextualiza a necessidade histórica dessa medida.

Chega de assédio. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Chega de assédio. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

“É tão cruel essa organização histórica, estruturante, permitida, aceita pela sociedade como um todo, que em algum momento da história a gente precisa constituir uma norma que obrigue os homens a nos receber nesses espaços, ou a dividir com a gente esses espaços.”


Ela explica o funcionamento prático dessa política. “É preciso uma norma que nos coloque nesse espaço, que garanta que a gente possa estar nesses espaços. Ela não garante que a gente vai ter voz, ela não garante que a gente vai ser ouvida, que vai ser considerada aquilo que for a nossa proposta no debate, mas garante a nossa participação.”


Cristiane observa o efeito multiplicador da presença feminina. “A mulher, na maioria das vezes, tem por conduta se animar quando outra mulher ocupa um espaço. Outras também têm essa possibilidade de ocupação. Puxa a outra para vir junto.”


Ela menciona a evolução das políticas de cotas em algumas instituições. “Quando a gente começou a instituir as cotas, a gente falava cota de mulheres, e depois disso algumas instituições foram avançando para 40%, porque o mínimo é 30%. Na nossa entidade (Sindicato dos Bancários de Curitiba) hoje, nós já temos paridade.”


Cristiane faz questão de reconhecer a história por trás das conquistas atuais. “É claro que há diversas mulheres que estão ocupando lugares e se aproveitando de uma luta feminista, se aproveitando de direitos que nós temos hoje porque diversas outras mulheres lutaram no passado, algumas morreram lutando por isso, e garantiram a nós, hoje, voz e direitos, como o direito ao voto, por exemplo, que nós não tínhamos.”


Ela ressalta um ponto importante. “A gente precisa destacar bem isso, que nem toda mulher está comprometida com as pautas feministas, embora ela ocupe espaços por conta da luta feminista, por conta de leis e direitos que nós conquistamos com a luta feminista.”


Para Walkiria, o caminho ainda é longo, mas as conquistas até aqui demonstram a força da organização das mulheres. A luta por igualdade salarial, por condições dignas de trabalho e por representação política segue como pauta central do movimento de mulheres trabalhadoras no Brasil.


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