Nem que a vaca tussa!
- lazzarimlouize
- há 3 dias
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Por Lea Oksenberg
Já parou para pensar nas coisas que a gente fala sem nem sentir? Às vezes, a gente é pego de surpresa pela própria língua que tenta domar. Se pararmos para desenhar literalmente o que dizemos, a cena seria um quadro do Salvador Dalí: uma vaca tentando tossir, alguém enterrando o pé numa jaca e um siri tentando manter a boca fechada sob juramento.
É engraçado como o português não aceita um simples “não”. Para explicar que algo é impossível, a gente tem que envolver o mundo animal e decretar: "nem que a vaca tussa!". E se a situação aperta de verdade, logo vem um "pela mãe do guarda!". Quem era esse guarda e por que a mãe dele virou essa entidade que a gente chama nos momentos de perrengue? Ninguém sabe, mas que ajuda a desabafar, ajuda.
Nessa minha curiosidade de ir atrás das palavras, descobri coisas ótimas. O famoso "pé na jaca", por exemplo, não tem nada a ver com a fruta grudenta. Nasceu do "pé no jacá" — aquele cesto que os tropeiros usavam. O sujeito bebia uma a mais, ia montar no burro e enfiava o pé no cesto. A gente só trocou o acento e a jaca se tornou o símbolo dos nossos exageros.
Tem também o "amigo da onça", que veio de uma piada antiga de caçador, e o "chorar as pitangas", que é quase um poema: a pessoa chora tanto que os olhos ficam vermelhos como a frutinha.
E a lista não para de crescer conforme a gente cutuca a memória. Tem expressão pra tudo, até pra hora da despedida final, como o elegante — e um tanto sinistro — "abotoar o paletó". É quase um consolo: se a vida é uma confusão, que a gente saia dela “nos trinques”. Mas antes de qualquer um precisar "abrir o jogo" ou "abrir o coração" sobre as verdades da vida, o melhor é tentar "acertar na mosca" e aproveitar o agora. Porque, se a gente não "agarrar com unhas e dentes" essas nossas raízes, aí sim, como dizem por aí: "a cobra vai fumar"!
Afinal, tentar explicar o Brasil sem esse nosso vocabulário surrealista? Nem que a vaca tussa!
Olho por olho, dente por dente
Aqui se faz, aqui se paga
Vamo simbora que atrás vem gente..."
(Homem de Pedra – Trio Parada Dura)
Nota da Redação: Este texto é fruto de uma pesquisa colaborativa entre a jornalista Lea Oksenberg e ferramentas de Inteligência Artificial para resgatar as origens da nossa cultura popular.






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