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Onde o azar faz a curva

Por Lea Oksenberg


A gente pode ser a pessoa mais racional do mundo, mas basta ver um chinelo virado que o coração gela. "Desvira isso, senão a mãe morre!", a gente ouve a voz da infância e não pensa duas vezes. É uma memória boba, mas a gente se esconde do invisível para tentar proteger quem a gente ama.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

Tem quem não passe debaixo de escada nem que a vaca tussa. Tem também quem não entregue o sal na mão do outro para não atrair a ruína ou a morte, e tem quem, como eu, guarda a roupa da sorte para o dia de votar, como se o tecido pudesse segurar o destino do voto.


O problema é que esse nosso medo do azar nem sempre fica só dentro de casa. A história do gato preto é o exemplo mais nítido: o bicho não fez nada, mas leva a fama de agourento só por causa da cor. Se a gente parar para pensar, é um jeito muito triste de ver a vida: rotular o que é diferente como se fosse um perigo. A gente aprende a desviar do gato e, sem perceber, acaba levando essa mesma lógica para as pessoas. É aí que a superstição se mistura com o preconceito e o racismo, criando uma barreira invisível com quem não teve a "sorte" de nascer com a cor que a sociedade considera a certa.


No fundo, a gente usa esses rituais para tentar controlar o medo, mas os problemas da vida não se resolvem com amuleto. Enquanto a gente se preocupa em jogar o sal para trás do ombro para cegar o capiroto, tem muita gente lutando só para ter o que temperar. A verdadeira "má sorte" não vem do saleiro que caiu ou do sapato virado ao lado da cama; vem dessa mania de achar que o azar é culpa do outro. Talvez o melhor jeito de proteger a nossa casa seja justamente parar de desviar o caminho quando o diferente cruza a nossa frente. Afinal, a vida só melhora de verdade quando a gente entende que a sorte de um não deveria depender do azar do outro.


Sou um gato preto de arrepiar Essa minha história é mesmo de amargar

Negro gato - Getúlio Côrtes

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