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O ponto de massa

Por Lea Oksenberg


Tem coisa que a gente não explica, só sente. O pai de uma grande amiga, um desses homens que trata a nossa língua como um namoro antigo, me escreveu e me fez mergulhar no rascunho. No começo, o que a gente tem é a ideia bruta — aquele monte de pensamento solto que ainda não sabe o que quer fazer.


Foto: Freepik.


O segredo que ele me passou é o tempo. Mas não esse tempo de relógio que corre contra a gente no dia a dia. É o tempo do preparo. Sabe quando você está na cozinha e precisa sentir a massa dar liga nas mãos? Escrever é igual. Você vai sovando as palavras, mudando uma vírgula, trocando um adjetivo, sentindo a textura do texto mudar sob os dedos.


É um diálogo silencioso com o papel, o celular ou o computador. Às vezes a frase resiste, o tom fica duro, não faz sentido. Noutras, ela cede e começa a deslizar, ganhando ritmo. Não adianta ter pressa. Se você força a escrita antes da hora, o texto sai sem alma, quebra o interesse de quem lê.


O segredo da coisa é justamente esperar o ponto de massa. É aquele estalo, o momento exato em que a confusão vira clareza e as palavras aceitam virar crônica, história ou desabafo. No fim, quando o texto vai para o mundo, o que fica é a nossa marca — aquela digital invisível de quem não teve medo de gastar tempo e afeto para contar uma história.


É você que ama o passado

E que não vê

Que o novo sempre vem

— Como nossos pais (Belchior)

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