O banquete dos desesperados
por Lea Oksenberg
Outro dia, falamos sobre o clima pesado que paira no ar, com aquela tensão pré-eleitoral que nos ronda. Hoje a gente acorda e percebe que o buraco é muito mais embaixo. Porque, afinal de contas, quem conhece bem estas paragens sabe que o Paraná tem uma antiga vocação de flertar com o perigo por meio das próprias escolhas.

Não é de hoje que o mapa das urnas locais nos faz duvidar da própria sanidade. Em um rápido exercício de memória, foi por aqui, em 1989, que o voto paranaense despachou o Afif Domingos na frente logo no primeiro turno. Foi aqui também que o furacão Collor encontrou terreno fértil, assim como a cartilha neoliberal de Fernando Henrique e toda sorte de salvadores da pátria engomados que prometeram o céu e entregaram o caos. O eleitorado daqui tem um histórico teimoso, uma queda inexplicável por vestir a camisa do que há de pior, como se o conservadorismo mais raiz precisasse de um laboratório oficial para testar suas piores fórmulas.
E é exatamente por isso que a garganta dá um nó e a alma fica roxa de preocupação agora. Quando a gente vê nas pesquisas a figura de um ex-juiz com aquele rastro de arbitrariedades liderando a corrida ao Palácio Iguaçu com folga, a sensação de reprise é nauseante. Para completar o banquete dos desesperados, surge no horizonte a dança macabra das alianças: Requião Filho ali na luta, a conversa torta de um arranjo com o Sandro Alex — o próprio "pai do pedágio" —, e a esquerda tendo que engolir um caminhão inteiro de sapos, de escolhas indigestas e de pragmatismos dolorosos só para tentar evitar a catástrofe absoluta.
É o dilema de sempre: ou se une os cacos com quem quer que seja, tapando o nariz e fechando os olhos, ou se entrega o Estado de bandeja para o abismo.
Se o Paraná é esse poço de contradições onde a história insiste em rimar com tragédia e farsa, restará ao menos a crônica e o desabafo, para que não digam que a gente assistiu a tudo em silêncio.
“Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim...”
(Aos Nossos Filhos — Ivan Lins e Vitor Martins)




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