O escudo de vidro
por Lea Oksenberg
A buzina do carro soou na esquina e interrompeu o transe digital em que Rô estava. Ela deu o último toque na tela, juntou os cacos da atenção e apressou o passo para a calçada. Abriu a porta do Uber e, como de habitual, cumprimentou o motorista polidamente.

Mas antes que o motorista tivesse a ousadia de tentar qualquer conversa sobre o clima, futebol ou eleição, Rô emendou, com um sorriso educado que escondia zero paciência para o falatório alheio:
— Olha, me perdoe, mas vou precisar trabalhar aqui. Ok?
Isso porque a civilidade exige desculpas elegantes para o sagrado direito ao isolamento. Resignado, o motorista pisou no acelerador.
Na real, Rô foi estratégica, claro. Ela só não queria papo e tinha, sim, muita coisa pra acertar no celular. Fazer os pagamentos, olhar o boletim da filha. Enfim, são inúmeras as possibilidades com aquele simples aparelho.
Para Rô, o celular há muito deixara de ser telefone; era a central de operações de uma sobrevivência prática. Por meio daquela tela ela resolvia a vida inteira — do boleto bancário que antigamente exigia senha e paciência na fila do banco (lugar em que ela já nem lembrava o cheiro) até os e-mails que abriam e fechavam o expediente. A tela era o seu bunker particular contra a chatice alheia e a ansiedade generalizada.
O problema é que o mesmo aparelhinho que nos livra da burocracia é o que desova o lixo do mundo na nossa fuça. Bastava rolar a tela para dar de cara com as pesquisas eleitorais que reviram o estômago e as estatísticas de uma desigualdade que insiste em bater tambor. Rô lia sobre a fome e a miséria com a frieza de quem consome um boletim meteorológico. E pensava com seus botões: que invenção maravilhosa essa da tecnologia, que nos permite saber que o mundo está desabando sem precisar olhar para o lado. Ler sobre a miséria na palma da mão dói no intelecto, mas poupa a vista do espanto. É uma anestesia tecnológica medonha: a tragédia entra em alta definição, mas fica contida atrás do vidro, sem o mau cheiro da realidade para atrapalhar a viagem.
Até que a anestesia perde o efeito. O carro freia bruscamente no semáforo, Rô levanta os olhos da tela por um segundo e dá de cara com o mundo real lá fora, espiando pelo vidro embaçado do carro. E se dá conta de que o perigo nunca foi o telefone na palma da mão, mas a facilidade com que a gente terceiriza a humanidade. Pois é, fingir que não vê a dor alheia atrás de um escudo de pixels é o atalho mais rápido para deixar de ser gente.
"Daqui a pouco o homem terá tanta facilidade de comunicação que o maior problema vai ser o de perto."
(Millôr Fernandes)




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