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O espião das roletas

por Léa Oksenberg


Enquanto a regra geral do tempo dita que a velhice venha acompanhada de um “o quê?”, “fala mais alto”, “hein?” e televisores no último volume, meu pai resolveu subverter a biologia. Ele tinha um ouvido bem apurado, calibrado com precisão invejável.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

Ele não precisava fazer esforço algum: chegava sempre em casa com um estoque renovado de novidades, dramas de vizinhos e “causos” que ninguém o havia convidado para ouvir, mas que o vento, cúmplice, fazia questão de entregar aos seus tímpanos.


O ápice desse dom não se deu na calçada de sempre, nem na fila do pão. Foi no cenário mais improvável e ruidoso do planeta: Las Vegas.


No meio daquele pandemônio de sinos tocando, luzes piscando, roletas girando e o tilintar frenético de fichas e moedas, onde qualquer mortal mal consegue ouvir os próprios pensamentos, meu pai encontrou o seu paraíso. Ele não precisava gastar um único dólar em apostas. O grande barato dele era outro: a espionagem afetiva da vida alheia.


Ele ia chegando de mansinho, encostava o corpo numa rodinha com aquele ar despretensioso de quem apenas aprecia a paisagem, inclinava a cabeça milimetricamente e deixava o radar funcionar.


De repente, ele voltava com um sorriso de canto e aquele olhar de quem desvendou os segredos de Estado:


— Filha, aquela mesa ali no canto está perdendo horrores.


Ele sabia quem estava à beira da falência, quem estava fingindo costume com uma sequência de derrotas e quem estava comemorando por pura sorte. No meio do maior templo mundial da ilusão, ele não se distraía com os truques do cassino; o que lhe interessava era a fresta de humanidade que vazava nas conversas cochichadas à meia-voz.


Meu pai era sensacional nesse ofício. Num mundo onde todo mundo fala pelos cotovelos e ninguém mais tem paciência para prestar atenção em nada, ele era um mestre na arte mais rara de todas: a de saber escutar.


"Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.” Rubem Alves

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