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O império das pequenas manias

24 de set.
2 min de leitura

por Lea Oksenberg


Luiza pertence àquela galera em que o papel de jornal impresso tinha peso de instituição sagrada. Septuagenária, a velha rotina matinal exigia o toque do papel que suja as mãos, o cheiro da tinta recém-tirada do rolo e o barulho de folha virada no sofá da sala. Como a Curitiba de hoje rareou essas antiguidades e o papel físico foi escasseando com os dias, Luiza teve de migrar para a rede. Quando esbarrou no portal O Sol, adotou-o como quem acolhe um velho amigo na sala de estar: virou hábito diário, o primeiro gole de café acompanhado da leitura na tela.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

Mas antes de qualquer pensamento coerente se formar na cachola, Luiza exige rigorosamente três cafés. A cafeína não é mero hábito; é o combustível de ignição, a licença poética para o cérebro começar a girar. O café tomado não encerra a prontidão. O dia só engrena depois que ela cumpre o protocolo do banho e dos cheiros: para dar a simples travessia até o cômodo a que chama de escritório, Luiza precisa estar banhada e perfumada. Socorro! São tantas as engrenagens que até para sentar diante da tela é preciso vestir a persona.


Com a cafeína correndo nas veias, o ofício de leitora solitária logo esbarra no seu temperamento expansivo. Informação boa, pensa ela, foi feita para circular. Criou, sem muita cerimônia, um grupo de mensagens no Whats e passou a destilar o portal todas as manhãs para a roda de amigos. Luiza, aliás, fica uma verdadeira arara se a internet cai, se o sinal oscila ou se, por algum cataclismo digital, o repasse diário falha. O grupo é seu jornal vivo, e ela, a editora-chefe daquela tribo.


Superada a fase da notícia, a mania dá uma guinada curiosa. Os "bom dias" que antes a irritavam profundamente — poluindo a memória do celular com figurinhas cafonas de flores e gatinhos reluzentes —, de repente, ganharam outro peso. Luiza olha para a tela com olhos mais mofados pelo tempo e entende o recado: não era mais poluição visual, era abraço à distância. Era o boletim de sobrevivência da turma. Um jeito terno de checar quem, ao amanhecer, ainda continua por aqui, firme na lida e respirando o mesmo ar da cidade. O que era protocolo chato virou carinho puro.


Depois disso, o dia finalmente pode começar. Luiza recolhe o celular, ajeita os óculos na ponta do nariz e dá de ombros para o barulho do mundo lá fora. Sabe que, enquanto houver um link para repartir, três cafés na xícara e um "bom dia" sincero pipocando na tela, a manhã curitibana ainda tem prumo.


O sol nasceu / Aqui na terra / Atrás da serra / Cachoeiro do Itapemirim

Adaptação da cronista à música João Sabino, de Gilberto Gil

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