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O pecado mora ao lado (da Sinagoga)

Por Lea Oksenberg


Dizem que o proibido é mais gostoso, mas no meu caso, ele vinha com recheio de crustáceo e uma pitada de culpa milenar. Até a minha adolescência, minha casa era um campo minado de etiquetas. Prato de carne embaixo, prato de leite em cima. Talheres que nunca se cruzavam, como amantes de famílias rivais. No meio disso tudo, minha mãe olhava para aquela montoeira de regras e suspirava.


Foto: Magnific.
Foto: Magnific.

A tradição era séria, mas a nossa fome de aventura era de total heresia. Nossas fugas estratégicas tinham destino certo: uma confeitaria famosíssima ali na Gustavo Sampaio. Longe dos olhos vigilantes da família do meu pai, cometíamos o crime perfeito. O corpo do delito? Um camarão gigante, envolto numa massa dourada e frita. Éramos as contrabandistas de sabores do Leme. Cada mordida era um pequeno motim contra os ensinamentos judaicos.


Mas, quando o desejo era de um prato de camarão de verdade, o plano era de guerra. Juntávamos amigos, parentes e quem tivesse carro para atravessar o Rio rumo ao Dinabar, nos confins da Barra da Tijuca. Naquela época, a Barra era um deserto de areia e breu, mas o prato que nos esperava valia cada quilômetro de escuridão.


A vida, porém, tem um senso de humor irônico. Um dia, o destino decidiu me atropelar — literalmente — na forma de um jipe militar, bem ali perto do quartel do Leme.


Fui parar na cama, imobilizada, e foi aí que a subversão alimentar atingiu o ápice. Meu tio, um querido, ligava todo santo dia: "O que você quer comer, filhinha?". Eu, em pleno leito de dor, pedia melão com presunto. Na minha cabeça infantil, presunto era algo que "dava em mercado", e não um derivado do porco proibido. Passei três meses nessa dieta de hotel cinco estrelas. O resultado? Enquanto meus ossos colavam, eu emagrecia com elegância. Fiquei magérrima, uma bela e bem-alimentada sobrevivente do Exército Brasileiro.


Sempre fui o alvo de mimos desse casal de tios que não tinha filhos. Quando eu fugia para a casa deles, o roteiro era sagrado. Ele abria a porta com um sorriso cúmplice:

— Sabe o que eu comprei para você, filhinha? Mignon!


Naquela época, o corte era o símbolo máximo de carinho. E minha tia não economizava. Eu vivia um ciclo glorioso: era mignon no café da manhã, mignon no almoço e mignon na ceia. Se a vida me desse limões, eu pedia para trocarem por um medalhão ao ponto.


No fim das contas, entre o prato de carne e o de leite, eu escolhi o prato da vida. Com escama ou sem escama, o que importava era o sabor daquela liberdade compartilhada — fosse no balcão da confeitaria, no breu da Barra ou no refúgio da casa dos meus tios.


Se o paraíso for realmente uma grande festa, tenho certeza de que não haverá separação de talheres. Estarei lá, na mesa principal, com um camarão em uma mão e uma fatia de presunto na outra, ao som de uma trilha sonora de quem viveu sem medo de ser feliz.

Afinal, se é para pecar, que seja com distinção, mimos e um acompanhamento dos melhores.


Se o mundo andar pra trás

Vou escrever num cartaz

A palavra rebeldia

(Utopia - Ceumar)

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