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O relatório das sombras

Quando o crime organizado vira coadjuvante

Por Lea Oksenberg


O relatório final da CPI do Crime Organizado chegou com pose de veredito histórico, mas o que vimos foi um teatro de luxo. O relator Alessandro Vieira, com sua conhecida fala mansa de suposto paladino técnico, decidiu que o perigo para o Brasil não está nas facções que dominam nossas cidades, mas nos gabinetes de Brasília. Ao pedir o indiciamento de ministros do Supremo e do Procurador-Geral da República, Vieira não assinou um documento jurídico; assinou um manifesto de ambição política para 2026.


Foto: Geraldo Magela/Agência Senado.
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado.

A derrota anunciada - A política não perdoa amadores. Percebendo que o relatório era uma arma apontada exclusivamente para o Judiciário, o governo agiu rápido nos bastidores: trocou dois integrantes da comissão na última hora e garantiu os votos para enterrar o texto. O resultado? O relatório não foi aprovado e virou poeira oficial. O governo agiu dentro do regimento, e o senador, que tentou dar um xeque-mate no sistema, acabou levando um "golpe de cadeira" e ficou isolado com seu papel sem valor legal.


Sejamos claros: o STF e todos os órgãos públicos devem, sim, ser transparentes e prestar contas ao povo. Transparência é obrigação, não favor. Mas juiz não é traficante e tribunal não é quadrilha. É um deboche que um ex-delegado entregue centenas de páginas e não dê um pio sobre milícias, tráfico de drogas ou venda ilegal de armas. A artilharia foi toda guardada para os ministros, enquanto o crime real — aquele que dita o toque de recolher e mata na esquina — foi tratado com uma cortesia ultrajante. Como diz Raul Seixas, o que nos entregaram foi um "ouro de tolo". Enquanto o Senado se perde em brigas de poder, o crime organizado agradece o espetáculo.


Eu devia estar contente

Porque eu tenho um emprego

Sou um dito cidadão respeitável...

Mas eu acho isso uma troça

E tenho uma vontade de rir.

(Ouro de Tolo - Raul Seixas)

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