O xadrez dos tracinhos cinzas
- lazzarimlouize
- há 17 minutos
- 2 min de leitura
por Lea Oksenberg
Desativar a confirmação de leitura no Whats virou mais um atestado de sobrevivência. Na tentativa desesperada de comprar sossego, o sujeito entra nas configurações do aplicativo, desmarca os dois risquinhos azuis e decreta: a partir de hoje, sou invisível. Será?

A ilusão da paz cobra um pedágio que divide a humanidade em duas categorias. O Whats impõe a regra da reciprocidade cega: quem não dá o recibo de leitura perde o direito de saber se o outro leu. Para os espíritos mais serenos — aqueles que juram que a manobra exterminou a ansiedade de vez —, o escuro é libertador; não saber é uma bênção, e a resposta virá quando tiver que vir.
Já para o restante dos mortais, a escolha é pura autossabotagem da curiosidade. O sujeito manda uma mensagem urgente e fica diante de dois traços cinzas inertes, navegando na escuridão que ele mesmo comprou. A imaginação — essa revisora cruel dos nossos piores monstros — preenche o silêncio com todo tipo de tragédia. Se antes o vácuo vinha com carimbo azul e firma reconhecida, agora ele vem travestido de mistério.
A pressa aboliu a pausa, e a tecnologia nos vendeu um truque barato para controlar a pressa alheia. Desligamos os avisos jurando que encontramos a cura para a agonia da resposta imediata, mas a verdade é uma só: no xadrez dos tracinhos cinzas, enquanto alguns poucos encontram a paz, o resto do mundo só fez democratizar a própria paranoia.
No fim das contas, a tentativa de sumir da tela é quase um pedido de socorro que Cartola já cantava com perfeição:
"Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar..."
Preciso me encontrar - Cartola




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