top of page

OPINIÃO I Não é tempo de desânimo, mas de olhar a História

6 de out.
4 min de leitura

A vitória de Lula em 2022 foi um respiro para acumularmos forças. Cabe a nós olharmos para nossas organizações e também para toda a esquerda, perguntando: acumulamos força quantitativa e qualitativa?


por Durval Siqueira Sobral*


Comício em Curitiba neste ano. Foto: Ricardo Stuckert
Comício em Curitiba neste ano. Foto: Ricardo Stuckert

Imagino que todo mundo esteja frustrado e assustado com tudo o que ocorreu, o que faz parte das eleições e da luta de classes.


Não existe explicação rápida e fácil para o que vem ocorrendo; precisamos retomar uma análise mais robusta sobre as lacunas da política do PT e as capacidades do bolsonarismo.


Portanto, explicações rápidas, que colocam a culpa em um ator político ou somente em um fato recente, são insuficientes e ilusórias: não explicam o todo e muitas vezes nem ajudam a chegar perto de uma conclusão justa.


Primeiro ponto: a derrota de hoje deriva dos erros históricos do PT e de Lula. Por serem históricos, esses erros transcendem os últimos quatro anos da gestão Lula 3 e vêm atravessando a prática da maioria da esquerda brasileira nas últimas três décadas.


Importantes vitórias foram alcançadas com diversos programas sociais, mas nenhuma delas veio por meio da educação política e nem da organização da classe trabalhadora. Nesse vácuo, as ideias liberais e meritocráticas cegaram os beneficiários desses programas.


O termo “pobre de direita” basicamente constata isso, mas não distribui de maneira correta a culpa; pelo contrário, coloca nos ombros do povo o erro de “não se conscientizarem” ou de “defenderem o patrão”, e por aí vai.


Ninguém toma consciência de classe sozinho; a falta dela provém da atuação da ideologia burguesa que permeia nosso dia a dia e atua para desorientar a classe trabalhadora. Sempre coube às organizações de esquerda revelar os interesses de classe por trás de todas as disputas, inclusive as eleitorais. O povo em geral, a classe média, os trabalhadores, não são culpados, por mais que neste momento estejam votando em seus "algozes".


Bolsonarismo e as massas


O segundo ponto é: o bolsonarismo é um movimento social de massas. Eles possuem cada vez mais organização e são extremamente politizados. Politizado aqui não é serem “sabidos”, mas os militantes desse movimento identificam em cada fato do cotidiano e da política nacional os interesses que devem defender. Ou seja, eles conseguem politizar tudo, das vacinas ao detergente, e por aí vai. Não existe vácuo na política; eles entenderam muito bem isso.


Por mais que Lula 3 tenha conseguido medidas sociais importantes (como a redução do imposto de renda, o aumento do salário mínimo e a redução da inflação), nenhuma dessas medidas contou com o engajamento e a politização necessárias. Ao contrário, Lula se coloca ao longo da sua carreira como “pai” dos pobres. O pai provê e os pobres esperam o provedor. Isso é desmobilizador e deseducador.


Por outro lado, mesmo o bolsonarismo sofrendo derrotas (a aprovação das medidas econômicas do governo, a prisão de Bolsonaro e dos golpistas de 8 de janeiro), eles não pararam de expandir a linha política deles para todos os lugares. Aqui está uma lição: mesmo na derrota é possível acumular força social; o neofascismo também compreendeu isso.


Nós estamos disputando com um movimento de massas que tem lideranças, que tem rede de disseminação ("um imenso partido digital"), que tem convivência interna e que acolheu a frustração de diversos setores da sociedade. Setores que estão decepcionados com a democracia brasileira e no fundo vivem as consequências da política neoliberal que roubou o seu poder de compra, definhando as suas condições de vida.


Também é importante acrescentar dois ingredientes para serem avaliados:


a) o bolsonarismo não tem medo da crise da democracia brasileira, eles querem “revolucionar” o Estado brasileiro, aparelhar as instituições e instaurar uma ditadura;


b) o neofascismo venceu no centro do capitalismo mundial, os Estados Unidos. Esse mesmo movimento deu um passo largo ao articular uma "internacional neofascista" que vem avançando na América Latina e no continente europeu.


Se vencerem no segundo turno, não vão “só fazer um governo”: eles irão aplicar um conjunto de reformas estruturais no Estado brasileiro e na legislação, atingindo a democracia, os direitos sociais, os movimentos populares, o meio ambiente e a soberania nacional.

Nós não temos uma estratégia na esquerda que aponte para a revolução e a tomada do poder. Nós não temos organizações de base de massa (todo o movimento popular e sindical refluiu) e nem o cotidiano da educação do conjunto de militantes formados e politizados.


Ou seja: não estamos prontos ideologicamente e nem materialmente para vencer o neofascismo no momento atual. Todavia, isso não significa que não podemos vencer no 2° turno, mas significa que, mesmo vencendo as eleições presidenciais, o neofascismo já possui melhores condições de luta do que a esquerda.


A vitória de Lula em 2022 foi um respiro para acumularmos forças. Cabe a nós olharmos para nossas organizações e também para toda a esquerda, perguntando: acumulamos força quantitativa e qualitativa? Onde erramos? O que fazer?


Enfim, serão muitos os pontos a serem debatidos. Lula está em uma situação complexa e a virada é pouco provável. Precisamos ser realistas sem perder a esperança: vamos lutar nessas eleições pela virada heroica e se perdermos nós vamos continuar lutando.


Os que se engajarem com maior fidelidade à classe trabalhadora e justeza na linha política serão referências no futuro. A verdade está do nosso lado; os que conseguirem manejá-la irão colher seus frutos!


*Advogado e militante da Consulta Popular/SE

 
 
 

Comentários


bottom of page