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Para além do batom

O 8 de Março e a engrenagem invisível que move o mundo


Por Lea Oksenberg


A euforia que o comércio tenta sequestrar todos os anos, distribuindo flores e descontos em eletrodomésticos, costuma conferir ao 8M um indesejado tom de "feriado de fachada". No entanto, longe dos filtros de redes sociais e das homenagens protocolares, a data exige um choque de realidade sobre o que sustenta, de fato, o funcionamento da nossa sociedade.


Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil.
Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil.

Se retirarmos o verniz da "fragilidade" ou do "heroísmo" romântico, o que sobra? Sobra uma engrenagem invisível. É o trabalho que não gera nota fiscal, não oferece bônus de produtividade e que, por conveniência histórica, é rotulado apenas como "amor" ou "obrigação familiar" para que não precise ser financeiramente reconhecido. É a chamada economia do cuidado.


Não se trata de um conceito acadêmico, mas do "corre" diário que mantém a vida em pé. É a logística mental de quem gerencia, em silêncio, o horário do remédio, a cor do uniforme, o calendário escolar e o estoque da geladeira. Nesse contexto, revela-se um fenômeno estrutural: a legião de mulheres que ocupa a linha de frente quando o sistema público ou as redes de apoio falham, segurando as pontas de núcleos familiares inteiros.


O tempo e a sanidade dessas mulheres são os alicerces para que outras trajetórias possam florescer e para que a economia formal continue a pulsar. Elas formam a base de uma pirâmide social que ignora quem está no chão, sustentando o peso. Enquanto o mundo debate índices macroeconômicos e taxas de juros, são as mulheres nas cozinhas e nas salas de estar que garantem que a força de trabalho esteja alimentada, educada e apta para o dia seguinte.


Por isso, se neste 8 de março o "parabéns" soar vazio, é porque o momento pede algo mais urgente: uma conversa honesta sobre o valor do tempo e do esforço invisibilizado. A força feminina não deve ser celebrada pela capacidade de suportar a exaustão, mas pela consciência de que o mundo não pode mais ser movido por moldes pré-fabricados.


A verdadeira potência não vem de uma data no calendário ou de um tapinha condescendente nas costas. Vem da compreensão de que o mundo, sem esse cuidado silencioso e constante, simplesmente pararia de girar.

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