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Mulheres e Ciência: as fronteiras ultrapassadas no dia a dia

A professora Alexandra Cristina Senegaglia fala de suas conquistas como cientista, mulher e educadora popular


por Pedro Carrano


Estudei sem pagar um único centavo na melhor universidade do Paraná, sempre senti vontade, sentia que devia isso, de dar chance para que essas crianças conheçam que a Ciência pode ser disponível. Foto: Divulgação PUC
Estudei sem pagar um único centavo na melhor universidade do Paraná, sempre senti vontade, sentia que devia isso, de dar chance para que essas crianças conheçam que a Ciência pode ser disponível. Foto: Divulgação PUC

A luta contra o machismo, em anos recentes, uniu-se diretamente à resistência em nome do conhecimento e da Ciência.


Enquanto, por um lado, a Universidade era atacada por um discurso extremista, além de sofrer com a falta de investimentos, por outro lado cientistas – muitos dos quais, mulheres -, destacavam-se em pesquisas fundamentais para a sociedade, mesmo sem grandes recursos e incentivos.


A bióloga Alexandra Cristina Senegaglia vive essa história. A cientista, doutora e pós-doutora, atuou por 22 anos como professora na Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR), onde contribuiu com a estruturação de um grupo de pesquisas em células-tronco que hoje é referência nacional. O grupo foi estruturado na PUC, onde Alexandra se aposentou, e conta com pacientes do Hospital de Clínicas, onde a cientista atua no momento.


“O projeto começou na PUC, onde trabalhamos com células-tronco, trabalhamos com esse foco para diversas patologias, na cardiologia, na ortopedia, produzimos células e enviamos para outros centros”, aponta.


O Hospital de Clínicas (HC), no Paraná, é o primeiro centro da América Latina que realizou transplante de medula óssea. A partir disso, hoje, as células são produzidas para atendimento dos pacientes do HC.


“Doadores doam a medula, expandimos as células-tronco específicas e os pacientes respondem muito bem a esse tratamento”, explica, contextualizando que terapias avançadas e seus resultados exigem muito critério para a divulgação de resultados e na relação com o cotidiano das pessoas. Uma vez também que há todo um trâmite junto à Anvisa para que determinado tratamento seja aprovado.


O financiamento das pesquisas, é importante dizer, é direto do Estado, do governo federal, da Fundação Araucária no Paraná, no programa de bolsas CNPQ*, reafirmando a urgência, percebida durante a pandemia de Covid-19, de investimento público em Ciência e Tecnologia.


*O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, fundação pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, tem como principais atribuições fomentar a pesquisa científica, tecnológica e de inovação e promover a formação de recursos humanos qualificados para a pesquisa, em todas as áreas do conhecimento.


Ação solidária e retorno para a sociedade


Depois de anos de experiência na Universidade, na pesquisa científica e na docência, Alexandra se colocou como educadora, popular e voluntária, no Centro Cultural e de Educação Popular (CCPE) da Vila União, uma área de ocupação organizada no bairro Tatuquara desde 2021.


Seu trabalho com o reforço no contraturno, promovendo atividades pedagógicas para crianças entre cinco a doze anos, para Alexandra foi uma experiência de difundir a ciência.


“Sou formada pela UFPR, estudei sem pagar um único centavo na melhor universidade do Paraná, sempre senti vontade, sentia que devia isso, de dar chance para que essas crianças conheçam que a Ciência pode ser disponível, principalmente as meninas. Que alguém pode trabalhar com a ciência sendo mulher. Tento trazer o interesse pela Ciência”, revela.


Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), apenas 30% dos cientistas do mundo são mulheres. Do total de estudantes matriculados em cursos de Ciência, Tecnologia, Engenharias e Matemática, somente 35% são do sexo feminino. 


Desigualdade de gênero na estrutura para as pesquisas científicas


Alexandra reflete que a pesquisa tem enfrentado nos últimos anos um duro embate ideológico, de setores conservadores contrários à Ciência. "Tivemos um período muito difícil", reconhece, quando via candidaturas emitir opiniões durante a pandemia sem estudo e qualificação sobre o tema.


Outro desafio é a desigualdade na distribuição de bolsas, entre homens e mulheres. Há diferentes tipos de bolsas de iniciação científica oferecidas pelo CNPq. "De forma geral, 59% dos bolsistas são mulheres. Já nas bolsas de produtividade, consideradas as de maior prestígio entre os pesquisadores, apenas 36% dos contemplados são mulheres. Neste grupo de bolsas, há o 1A (com prestígio ainda maior) e o número de mulheres participantes é ainda menor: apenas 25% são direcionadas para o sexo feminino", descreve.



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