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Andar com fé (e espinhas)
por Lea Oksenberg Crescer é um processo complicado. De uma hora para a outra, o pescoço estica, as pernas ganham vida própria e o sujeito parece não saber direito o que fazer com os próprios braços. Totalmente desengonçado. A voz, coitada, começa grossa, descamba para um agudo de taquara rachada e termina num sussurro tímido, tudo na mesma frase. Nascem pelos onde antes era um deserto, as camisas encolhem no armário em questão de semanas e, de repente, no meio desse cenário e
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13 de jul.2 min de leitura


O frio da meada
por Lea Oksenberg O termômetro na parede marca 4 graus, e a temperatura do chuveiro levanta o ânimo de tirar a roupa: 44 graus de puro vapor e dignidade. Você conta até dez, se enche de coragem, se enfia ali debaixo e, por cinco minutos, sente que venceu o inverno de Curitiba. É a glória. Foto: Freepik Até que, sem aviso, o paraíso desaba. A água morna vira um jato da Antártida. Jesus armado até os dentes. O que se faz numa hora dessas, sozinha em casa? Ensaboada é que não dá
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11 de jul.2 min de leitura


Sob medida
por Lea Oksenberg Julia nasceu em setembro, desafiando a balança do berçário. Era um bebê imenso, magnífico, composto por bochechas, dobrinhas e uma ausência absoluta de pescoço — detalhe que um tio, vindo de São Paulo para a visita, fez questão de desejar que Papai Noel desse à menina um pescoço de Natal. O tempo passou, o pescoço começou a querer dar o ar da graça, mas a fofura continuava lá, firme, forte e distribuída em braços e pern
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9 de jul.2 min de leitura


Barriga cheia, alma vazia
por Lea Oksenberg A vida inteira ela esperou pelo príncipe que viria montado num cavalo branco. O problema é que o tempo passa, os mitos desbotam e, quando o bicho finalmente apontou na esquina, a realidade se impôs com o peso de um elefante. Do cavalo desceu Gabriel. Ele não tinha armadura, não tinha modos e tinha um cheiro, eca, que denunciava a recusa dele de encarar um chuveiro há algum tempo. Mas dividia os corredores da faculdade de Direito com Beatriz, e isso, na cabeç
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9 de jul.2 min de leitura


Invasão tropical
por Lea Oksenberg O vento passava por todas as frestas do apartamento de Ângela. Parecia uma lâmina afiada, daquelas que cortam até pensamento. Na sala, enrolada em três mantas e segurando uma caneca de chá fumegante com as duas mãos — para ver se os dedos recuperavam o tato —, Ângela atendeu a chamada de vídeo. Foto: Freepik Na tela, a amiga aparecia radiante, vestindo uma regata leve, com o fundo ensolarado e a luz inconfundível de Alagoas. — Menina, abri o aplicativo do te
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23 de jun.2 min de leitura


As tampas perdidas
por Lea Oksenberg Simone estava prestes a enlouquecer. A sala, antes impecável, virara um labirinto de caixas e plástico bolha — a mudança tem o poder de transformar a vida num acampamento de nós mesmos. Foto: Freepik. Sentada no chão, Moni travava uma batalha contra os potes de vidro. Diferente de outras cozinhas, a sua só tinha potes de vidro robustos e transparentes. O problema? No caos dos caixotes, as tampas tinham fugido. Ela segurava um pote perfeito enquanto dezenas d
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22 de jun.2 min de leitura


A pagadora de promessas
por Lea Oksenberg Diz o bom senso que promessa é dívida, mas ninguém te avisa que a vida cobra pra valer e que não aceita parcelamento. Quando a gente faz um pacto com o invisível para que o mundo volte a se ajeitar, e em troca de uma promessa, jogamos na mesa o que nos é mais caro. E o milagre veio. Foto: Freepik. Na eleição de 2022, tudo o que eu queria era que o inominável perdesse e Lula voltasse. Era uma eleição difícil. O genocida tinha aberto os cofres e deixava o dinh
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18 de jun.3 min de leitura


A terceirização para o andar de cima
por Lea Oksenberg O brasileiro, do mais carola ao ateu, não passa cinco minutos sem acionar Deus. Reparou? Ele virou pontuação na nossa língua, quase uma vírgula. É "Graças a Deus" para saudar a sexta-feira, "Meu Deus do céu" para o susto da conta a pagar e "Vai com Deus" na despedida. O problema, bem se vê, não é a fé; é a nossa simpática mania de terceirizar absolutamente tudo para o andar de cima. Foto: Freepik Se o entregador traz o jantar debaixo de chuva, a gente sorri
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17 de jun.2 min de leitura


O peso da dor
por Lea Oksenberg Dizem que o coração é só um músculo, mas a anatomia falha em explicar a dor no peito. Ele é, na verdade, onde todas as nossas dores se cruzam. E são tantas. Foto: Freepik. Há a dor abstrata, coletiva, que aperta quando andamos pela rua e esbarramos na pobreza e na fome. Há a dor física, concreta, essa que trava as costas, cansa os olhos e rouba as forças, nos impedindo de continuar ou até de finalizar um projeto que tanto queríamos entregar ao mundo. O corpo
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12 de jun.2 min de leitura


A dona do próprio nariz. Será?
por Lea Oksenberg A entrevista de emprego transcorria num clima de absoluto desapego à realidade. O entrevistador, Clovis, vestindo aquele terno justo e cinza de quem trabalha em Recursos Humanos, sorria como quem está prestes a vender um lote na Lua para Luciana. Foto: Freepik. — Aqui na empresa, nós somos modernos — disse Clovis, com os olhos brilhando. — Não trabalhamos com aquele modelo engessado e arcaico da CLT — falou, com indisfarçável desprezo. — Nós queremos parceir
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11 de jun.3 min de leitura


Receita de mãe
por Lea Oksenberg Dona Etelvina era uma grande figura. Além de extremamente engraçada, Dona Tetê, como era carinhosamente chamada, casou-se com o Seu Mário, com quem teve dois filhos: Ana Cláudia e Leonardo, o caçula. Foto: Freepik. Toda semana, quando as crianças ainda eram pequenas, Dona Tetê se reunia com as amigas para jogar. Era programa sagrado, com dia e hora marcados. Certa vez, estavam todos na sala quando um estrondo ecoou pela casa. No mesmo instante, Dona Tetê des
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9 de jun.2 min de leitura


A teimosia dos trilhos
por Lea Oksenberg Olhar para trás, às vezes, dá o mesmo cansaço de olhar para a imensidão da frente. A vida tem dessas paisagens esquisitas. É o cenário exato da dor que não grita — aquela dor muda, que não pede licença, mas também não consegue parar os nossos passos. Viver tem sido esse exercício de avançar aos trancos e barrancos. Há uma resistência silenciosa em cada amanhecer. Não há aplausos para quem decide continuar. Existe apenas o equilíbrio difícil sobre os trilhos
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9 de jun.1 min de leitura


O fantasma que fumava e tossia
por Lea Oksenberg Francisco nasceu em Picos, no interior do Piauí, mas o destino — e um charme discreto de quem não faz força — o levou direto para a capital paulista. Na selva de pedra, Chico era um bicho-do-mato refinado: devorava livros, amava esportes e guardava uma timidez do tamanho do mundo. Demorou para engrenar nos amigos e nos namoros. Enquanto o amor não vinha, ele ia se achando nas páginas da literatura e nos braços de uma moça da vida,
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8 de jun.2 min de leitura


CONTO INFANTIL I Um objeto não identificado
"Encontrariam algo desconhecido? Quem pode saber"
Pedro Carrano
7 de jun.2 min de leitura


O segredo da buçañha
por Lea Oksenberg Seu Lorival, Dona Jana, o genro Carlos e a filha do casal, Helena, tinham um ritual sagrado: o jogo de buraco. Mas o jogo vinha com uma regra de sobrevivência conjugal implícita. Helena abria mão de jogar com o marido para fazer dupla com o pai. Consequentemente, Carlos jogava com a sogra, Dona Jana. A troca estratégica de parceiros era vital; se jogassem marido e mulher na mesma dupla, saía faísca e o pano verde da mesa pegava fogo. Foto: Freepik. Mesmo ass
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4 de jun.2 min de leitura


O gato do Müller
por Lea Oksenberg Quando o céu desaba em chuva — ou seja, um domingo normal em Curitiba —, o curitibano corre para o shopping. E aquele dia estava perfeito: cinza, gélido e deprimente. Marinalva precisava tirar a filha, Ritinha, de casa antes que o pequeno projeto de gente destruísse o resto do apartamento. Teve a ideia de arrastar a amiga Edicleia para um rolê no Shopping Müller. E lá se foram as três, prontas para bater perna e gastar o que não tinham. Foto: Freepik. No mei
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3 de jun.2 min de leitura


O currículo de Edi
por Lea Oksenberg Edinalva foi uma jovem de parar o trânsito. Onde passava, os fuscas e as kombis freavam em seco. O nome, convenhamos, não vinha com o mesmo charme do samba nem da bossa nova que embalava a época, mas quem gostava dela de verdade tratava de encurtar a distância: chamava de Edi. E Edi cresceu, desabrochou e virou uma baita mulher. Nos anos 60 e 70, já não parava apenas o trânsito; promovia verdadeiros nós humanos e engarrafamentos homéricos naquela orla encant
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1 de jun.3 min de leitura


CRÔNICA I Sobre a arte e nossos caminhos tortos
Falava sobre o fato de o estilo refletir talvez os nossos defeitos mais do que necessariamente nossas virtudes
Pedro Carrano
26 de mai.2 min de leitura


A língua que se canta e se vive
por Lea Oksenberg Nesta semana em que celebramos o Dia da Língua Nacional, no dia 21 de maio, vale a pena desviar o olhar dos manuais de gramática e prestar atenção na rua. É lá, no calor do dia a dia, que o português do Brasil se mostra uma língua única e cheia de personalidade. Nós não apenas herdamos um idioma; nós o transformamos, misturamos e demos a ele um tempero que é puramente nosso. O brasileiro tem uma capacidade única de transformar a própria história em verbo. Se

Vigília Comunica
21 de mai.2 min de leitura


CRÔNICA | A rua de Julieta e Romeu
“O mundo é grande. O universo é grande. A constelação é grande. A galáxia é grande. E é ali que eles vivem, nesse mundo enorme e nessa pequena esquina de vida” por Pedro Carrano Eles chegam perto, às vezes amigavelmente, às vezes demarcando o território. A rua é aberta, o bairro extenso, construído no traçado de uma ferrovia. Região, bolsão, vila, complexo, favela, que importa o nome, a quebrada tem curvas, entradas, becos e caminhos tortos de rio. O mapa, dizem, nunca é o te

Vigília Comunica
19 de mai.2 min de leitura
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